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Irã sob cerco: crise interna, guerra híbrida e o retorno do imperialismo

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02.01.2026

Os protestos no Irã não podem ser compreendidos fora do cerco imperial que há décadas tenta sufocar sua soberania. Entre inflação, sanções, guerra informacional e ameaças externas, o que está em jogo não é apenas um governo, mas o direito de um povo decidir seu próprio destino.

Uma crise fabricada: quando a economia é transformada em arma

A crise econômica que hoje explode nas ruas do Irã não é um acidente histórico nem resultado de um desajuste interno isolado. Ela é o produto previsível de décadas de guerra econômica conduzida deliberadamente pelos Estados Unidos, por meio de sanções, bloqueios financeiros, perseguição diplomática e estrangulamento sistemático da capacidade do país de organizar sua própria vida econômica. Quando a moeda desaba e os preços disparam, não se trata de uma falha técnica do mercado, mas do efeito concreto de uma política internacional desenhada para produzir instabilidade social.

Sanções não são instrumentos neutros de “pressão política”. São armas que atuam diretamente sobre a reprodução da vida. Ao bloquear receitas, expulsar o país de circuitos financeiros globais e elevar artificialmente o custo de importações essenciais, o cerco econômico desloca o conflito do plano diplomático para o cotidiano das famílias, dos trabalhadores e dos pequenos comerciantes. A inflação, nesse contexto, não é um número: é uma forma silenciosa de violência.

O colapso econômico iraniano precisa ser lido, portanto, como crise induzida. Uma crise fabricada de fora para dentro, cujo objetivo histórico nunca foi corrigir políticas internas, mas submeter uma nação soberana à asfixia prolongada. O protesto não surge apesar desse cerco. Ele surge por causa dele.

Quando a moeda cai, o contrato social se rompe

A moeda não é um indicador técnico distante da realidade. No Irã, a desvalorização prolongada do rial significou algo muito mais profundo do que a perda de valor nominal: significou o colapso da previsibilidade, elemento central de qualquer contrato social minimamente funcional. Quando o salário deixa de projetar o amanhã, a poupança perde sentido e o crédito se torna inacessível, a política deixa de ser escolha e passa a ser necessidade.

Esse é o ponto em que a economia se politiza de forma irreversível. A inflação contínua corrói não apenas o consumo, mas a própria ideia de futuro. O trabalhador já não calcula apenas quanto pode comprar hoje, mas se conseguirá sustentar sua família no mês seguinte. O pequeno comerciante deixa de planejar reposição de estoque. O estudante percebe que a formação não garante horizonte. Nesse cenário, a estabilidade social não se dissolve por ideologia, mas por exaustão material.

É exatamente por isso que protestos desse tipo não podem ser compreendidos como explosões espontâneas ou mobilizações abstratas por “valores”. Eles emergem quando a economia deixa de cumprir sua função básica de mediação entre o presente e o futuro. O conflito, então, desloca-se do campo técnico para o campo político, não por radicalização discursiva, mas porque a sobrevivência cotidiana passa a ser vivida como crise permanente.

Quando a moeda cai, o Estado perde sua capacidade de organizar expectativas. E quando as expectativas colapsam, a rua deixa de ser espaço simbólico e passa a ser espaço histórico. O protesto, nesse sentido, não inaugura a crise. Ele apenas a torna visível.

O bazar e a universidade: sinais clássicos de ruptura estrutural

Há um motivo pelo qual o fechamento do bazar e a mobilização universitária aparecem, no Irã, como sinais particularmente graves. Não é folclore. É uma estrutura social. O bazar não é apenas comércio: é circulação, abastecimento, crédito informal, emprego, sociabilidade urbana. Quando lojas fecham e a engrenagem cotidiana desacelera, a crise deixa de ser sensação difusa e se converte em fato coletivo, visível e contagioso. É a materialidade do colapso........

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