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Entre a indignação e a estratégia: a Venezuela no tabuleiro do poder global

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03.01.2026

O que ocorreu hoje contra a Venezuela é um crime internacional inequívoco. Um ataque direto à soberania de um país latino-americano, realizado fora de qualquer marco legal, diplomático ou humanitário. A indignação é não apenas legítima, mas necessária. No entanto, há um erro recorrente que o campo progressista insiste em cometer em momentos como este: permitir que a justa revolta substitua a análise estratégica.

Indignação sem leitura de poder não protege ninguém. Ao contrário, frequentemente desarma.

A história recente da América Latina mostra que os maiores retrocessos não ocorreram apenas por força externa, mas pela incapacidade interna de compreender o tabuleiro em que se estava jogando. Confundir moral com política, desejo com correlação de forças, solidariedade com negação da realidade concreta é um luxo que projetos soberanos não podem se permitir.

O ataque à Venezuela não pode ser lido apenas como um ato de brutalidade isolada, nem como uma explosão irracional do imperialismo. Ele precisa ser entendido como parte de um movimento racional, frio e calculado, inscrito em uma disputa global em curso. Reduzir o episódio a uma narrativa de vilões e vítimas, por mais sedutora que seja, impede a compreensão do que realmente está em jogo e, pior, do que ainda pode acontecer.

Há momentos em que a paixão política fortalece a resistência. Há outros em que ela se transforma em cegueira estratégica. Este é um desses momentos-limite. O cenário exige lucidez, não catarse. Exige leitura estrutural, não apenas denúncia. Exige reconhecer que o inimigo não improvisa, não age por impulso e não opera sem garantias mínimas.

Defender a Venezuela hoje implica mais do que condenar o ataque. Implica entender por que ele ocorreu agora, quais forças se movem por trás dele, quais ilusões precisam ser abandonadas e quais erros não podem ser repetidos. A soberania não se preserva apenas com palavras de ordem, mas com análise rigorosa da realidade concreta.

Este texto parte desse princípio: solidariedade incondicional à Venezuela, sem abdicar da frieza analítica que a sobrevivência política do Sul Global exige. Porque, em disputas dessa magnitude, não basta estar do lado certo da história. É preciso entender como a história está sendo escrita.

Para compreender o ataque à Venezuela, é preciso abandonar uma ilusão persistente: a de que os Estados Unidos ainda operam a partir de uma posição de expansão global. O momento histórico é outro. Washington vive um processo de retração estratégica, pressionado pela ascensão chinesa, pela consolidação de polos eurasiáticos e pela erosão progressiva de sua capacidade de impor ordem fora de sua área de influência imediata. É justamente nesse contexto que a América Latina se torna uma questão existencial.

Quando um império começa a perder capacidade de comando global, ele tende a endurecer o controle sobre suas zonas históricas de domínio. Não por força ideológica, mas por necessidade material. A América Latina, tratada desde o século XIX como espaço natural de projeção do poder estadunidense, não é um teatro secundário. É o último território onde Washington ainda acredita poder exercer hegemonia direta, com custos relativamente baixos e alto impacto simbólico.

Esse movimento não é novo, mas se intensifica à medida que outras frentes se tornam mais difíceis de sustentar. A guerra na Ucrânia drena recursos, expõe limites militares e aprofunda fissuras internas nos EUA. O Indo-Pacífico é um tabuleiro complexo, onde qualquer erro pode significar confronto direto com a China. Diante disso, a América Latina surge como o espaço onde o império tenta reafirmar autoridade, demonstrar força e enviar um recado claro ao mundo: ainda há um quintal que não será perdido sem conflito.

Nesse sentido, a Venezuela ocupa uma posição estratégica central. Não apenas por suas reservas energéticas, mas por representar, simbolicamente, a persistência de um projeto político que se recusa a se submeter integralmente à tutela de Washington. A existência desse projeto, ainda que sob enorme pressão, funciona como um precedente perigoso. Ele sinaliza que é possível resistir, negociar fora do eixo imperial e sobreviver, mesmo sob sanções e isolamento.

Para os Estados Unidos, permitir que esse precedente se normalize é mais ameaçador do que qualquer discurso. Por isso, a agressão não deve ser lida como exceção, mas como afirmação de método. Trata-se de demonstrar que, na América Latina, a margem de autonomia continuará sendo estreita e condicionada. Que desvios terão custo. Que soberania fora dos limites permitidos será tratada como desafio existencial.

Esse quadro ajuda a explicar por que não haverá recuo fácil. A lógica imperial, quando encurralada, não se torna mais cautelosa; torna-se mais agressiva em seus espaços de controle histórico. O problema não é a Venezuela em si. O problema é o sinal que ela envia ao restante do continente. E, nesse cálculo, países como Brasil, Colômbia e outros não estão fora do radar. Estão, na verdade, dentro do mesmo campo de forças.

Ignorar essa dimensão é cometer um erro grave de leitura. A agressão à Venezuela não é apenas sobre Caracas. É sobre a tentativa de redefinir os limites do aceitável para toda a América Latina em um momento de transição do sistema internacional. Entender isso é condição básica para qualquer estratégia defensiva soberana daqui para frente.

Ler o ataque à Venezuela como um ponto fora da curva é um erro analítico elementar. O que se viu hoje não inaugura um método, apenas o atualiza. A política externa dos Estados Unidos para a América Latina, especialmente diante de projetos soberanos, sempre operou a partir de uma combinação recorrente de asfixia econômica, isolamento diplomático, guerra informacional e, quando necessário, força direta. A ordem dos fatores varia; a lógica permanece.

Antes que bombas caiam, narrativas são construídas. Antes que fronteiras sejam violadas, legitimidades são corroídas. O ataque militar é quase sempre o último ato de um processo longo, cuidadosamente preparado para reduzir o custo político da agressão. No........

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