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Como foi possível capturar Maduro

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06.01.2026

Sob alerta máximo, com forças armadas em prontidão e sistemas de defesa ativos, a Venezuela assistiu à captura de seu chefe de Estado sem resposta aérea ou terrestre efetiva. Não se trata de opinião nem de propaganda, mas de um problema material que exige análise rigorosa: que condições tornaram isso possível e o que esse precedente significa para a soberania dos países do Sul Global.

O fato e a anomalia

No início de janeiro de 2026, uma operação conduzida pelos Estados Unidos resultou no sequestro de Nicolás Maduro em território venezuelano e em sua transferência imediata para os Estados Unidos. O episódio foi apresentado por Washington como uma ação de natureza penal e descrito por Caracas como um sequestro internacional. Em poucos dias, a estrutura política do país entrou em rearranjo acelerado, sob forte pressão externa e profunda instabilidade institucional.

O que torna esse evento singular não é apenas a violação explícita da soberania venezuelana, nem o precedente jurídico que se tenta construir a partir dela. O ponto central, aquele que exige análise rigorosa, é outro: a ausência de uma reação militar observável compatível com o nível de ameaça previamente declarado pelo próprio Estado venezuelano.

A Venezuela vinha operando sob discurso permanente de alerta máximo, em um contexto de hostilidade aberta, sanções prolongadas e risco anunciado de agressão externa. Em situações desse tipo, a experiência histórica mostra que Estados, mesmo fragilizados, tendem a reagir de alguma forma quando seu núcleo de poder é diretamente atacado. Aqui, isso não ocorreu de maneira proporcional ou visível.

Esse descompasso não pode ser tratado como detalhe nem explicado por slogans. Ele constitui uma anomalia estratégica. E anomalias, quando observadas com seriedade, não são descartadas; são o ponto de partida de qualquer investigação honesta.

Este artigo não parte de narrativas prontas, nem da propaganda imperial que celebra “operações perfeitas”, nem de explicações apressadas que reduzem processos complexos a traições genéricas. O objetivo é outro: compreender quais condições materiais, humanas e organizacionais podem ter tornado esse evento possível, e o que isso revela sobre o exercício do poder, a guerra contemporânea e os limites da soberania no século XXI, especialmente para os países do Sul Global.

Estados funcionam por cadeias materiais

Estados não reagem por abstrações, discursos ou intenções declaradas. Reagem por cadeias materiais. Essas cadeias são compostas por estruturas físicas, rotinas organizacionais, fluxos de informação, hierarquias humanas e protocolos de decisão que, quando acionados, produzem efeitos concretos no território. Defesa, portanto, não é uma ideia; é um processo.

Para que um Estado responda a uma agressão direta contra seu núcleo de poder, uma sequência mínima precisa estar operacional: detecção, comunicação, decisão, execução. A interrupção de qualquer elo dessa cadeia não paralisa apenas uma unidade isolada; compromete a resposta como um todo. Quanto mais centralizado o sistema político-militar, maior a dependência dessa sequência funcionar sem rupturas.

A detecção envolve sensores, vigilância humana, inteligência técnica e percepção situacional. A comunicação exige canais funcionais, redundantes e confiáveis entre unidades, comandos intermediários e centros decisórios. A decisão depende de autoridade reconhecida, clareza de comando e disposição para agir. A execução requer tropas, meios e operadores dispostos e capazes de cumprir ordens em tempo útil.

Nada disso acontece automaticamente. Mesmo sistemas altamente militarizados não “reagem sozinhos”. Eles reagem quando essas cadeias permanecem íntegras sob estresse. Quando não permanecem, o que se observa não é necessariamente derrota militar clássica, mas inércia operacional.

É por isso que explicações baseadas apenas em “superioridade tecnológica” ou “vontade política” são insuficientes. Tecnologias ampliam capacidades, mas não substituem cadeias organizacionais. Vontade política pode orientar decisões, mas não executa ações se os meios não estão sincronizados. Estados colapsam operacionalmente não quando perdem todas as armas, mas quando perdem a capacidade de transformar intenção em ação coordenada.

No caso venezuelano, o sequestro de um chefe de Estado em território nacional sem resposta militar observável sugere, no mínimo, uma ruptura significativa em uma ou mais dessas cadeias. Não se trata ainda de atribuir causa, mas de reconhecer o mecanismo: algo interrompeu, atrasou ou neutralizou o processo que normalmente converteria alerta em reação.

Essa constatação é decisiva porque desloca o debate do campo moral ou ideológico para o campo material. Antes de perguntar “quem venceu” ou “quem traiu”, é preciso compreender o que deixou de funcionar. Sem essa compreensão, qualquer narrativa será apenas isso: narrativa.

O que se espera quando um Estado está sob alerta máximo

Estados que operam sob alerta máximo não funcionam como em tempos ordinários. O alerta não é apenas uma declaração política; ele implica alterações práticas no funcionamento do aparelho militar e de segurança. Protocolos mudam, cadeias encurtam, margens de decisão se estreitam. A finalidade do alerta máximo é reduzir o tempo entre ameaça percebida e resposta efetiva.

Em termos empíricos, quando um Estado acredita estar sob risco iminente de agressão externa, alguns comportamentos tendem a aparecer com alta regularidade histórica. A defesa aérea eleva níveis de prontidão. Unidades sensíveis reforçam perímetros. Autoridades-chave passam a operar em circuitos de proteção ampliados. Tropas estratégicas entram em estado de mobilização preventiva. Mesmo países com capacidades limitadas costumam produzir sinais visíveis de reação, ainda que desorganizados ou ineficientes.

Essas respostas não precisam ser bem-sucedidas para existirem. Em diversos conflitos contemporâneos, observam-se lançamentos erráticos de mísseis, decolagens tardias, confrontos localizados, decisões........

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