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Argentina: a frágil estabilidade que não virou desenvolvimento

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19.09.2026

Há um risco analítico grande em discutir a Argentina hoje, que é escolher um lado da estatística e fingir que o outro não existe. Os dois lados são verdadeiros ao mesmo tempo, e é exatamente daí que vem a complexidade do caso.

Comecemos pelo que funcionou. O ajuste fiscal foi feito, e foi feito de verdade. A inflação, que rodava acima de 25% ao mês no fim de 2023, ficou entre 1,9% e 3,4% ao mês nos primeiros oito meses de 2026. Depois da recessão do primeiro ano, a economia cresceu 4,4% em 2025. Os mercados compraram a história: o risco país fechou perto de 490 pontos, acumulando queda de 71 pontos no ano, depois de tocar 403 em julho, o menor nível desde abril de 2018. As reservas brutas rondam os US$ 50 bilhões e projeta-se para 2026 um superávit comercial recorde. Nada disso é pouco para um país que passou décadas sem conseguir nenhuma dessas coisas.

Agora o outro lado, que é onde eu quero me deter. A economia encolheu 0,6% no segundo trimestre de 2026 na comparação com o trimestre anterior, o desemprego subiu para 7,9% e a informalidade no mercado de trabalho bateu recorde de 45%. Entre junho de 2025 e junho de 2026 foram eliminados 121 mil empregos formais assalariados no setor privado, mais 30,5 mil no setor público, e a indústria sozinha perdeu 51,8 mil vagas formais no período. Quase 6 milhões de argentinos estão inadimplentes, o equivalente a 13,6% da população, e os dados de pobreza do primeiro semestre só saem no dia 24 de setembro. A inflação, vale registrar, segue rodando entre 32% e 33% em termos anuais: caiu de patamar hiperinflacionário para patamar simplesmente alto.

A leitura convencional dirá que isso é o custo transitório do ajuste, a travessia do deserto antes da terra prometida. Minha leitura é outra, e ela é estrutural. O que ancora essa estabilização não é o superávit primário sozinho — é o câmbio. Um peso apreciado segura preços no curto prazo e destrói margem no setor industrial exatamente ao mesmo tempo. É a velha equação que Bresser-Pereira descreveu para a América Latina inteira: a taxa de câmbio é a variável que decide quais setores sobrevivem. Quando ela fica sobrevalorizada por tempo suficiente, quem morre não é o setor ineficiente genérico, é o setor complexo, o que emprega qualificado, o que acumula capacidade produtiva. Os 51,8 mil empregos industriais perdidos não são ruído estatístico; são a assinatura do processo.

E o que vai ocupar o lugar? O superávit comercial recorde e o entusiasmo dos investidores apontam para Vaca Muerta, lítio, mineração e agronegócio. O próprio Caputo levou ao G20 os números do RIGI: cerca de........

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