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Venezuela como laboratório do caos e a nova geopolítica da força

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04.01.2026

O que ocorreu na Venezuela na madrugada de 3 de janeiro de 2026 não pode ser tratado como mais um capítulo da longa crise política e econômica do país, nem como uma simples “operação antinarcóticos”, como tenta enquadrar a Casa Branca. A captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, por forças dos Estados Unidos, em território venezuelano, representa algo qualitativamente distinto: o sequestro de um chefe de Estado em exercício por uma potência estrangeira. Trata-se de um divisor de águas na ordem internacional contemporânea e, de forma ainda mais sensível, na história recente da América Latina.

Ao agir dessa forma, o governo de Donald Trump rompe não apenas com décadas de retórica diplomática, mas com pilares básicos do direito internacional, abrindo um precedente que transcende a Venezuela e se projeta diretamente sobre a reorganização do sistema mundial em curso.

Da retórica jurídica à política do fato consumado - Washington procura justificar a operação com base em acusações antigas de narcotráfico e terrorismo formuladas por tribunais norte-americanos. O problema central é que não existe base jurídica internacional que autorize a captura de um presidente em exercício de um Estado soberano sem mandato multilateral, sem decisão do Conselho de Segurança da ONU e sem qualquer mecanismo reconhecido de cooperação judicial.

O que se observa, portanto, é a substituição deliberada da ordem internacional baseada em normas por uma lógica de força e exceção. Não se trata de uma falha do sistema, mas de uma escolha política consciente. A mensagem implícita é clara: quando os interesses estratégicos de Washington estão em jogo, o direito internacional torna-se opcional.

A América Latina conhece bem esse roteiro. Golpes, intervenções e operações encobertas marcaram o século XX, sempre justificadas por discursos morais — ontem o anticomunismo, hoje o combate ao narcotráfico ou à corrupção. A novidade agora é a brutalidade do gesto: não se derruba apenas um governo, sequestra-se fisicamente o chefe de Estado, como demonstração exemplar de poder.

Rússia, China e o fim da ambiguidade estratégica - Desta vez, porém, a reação internacional não foi tímida. China e Rússia condenaram de forma explícita a ação norte-americana, classificando-a como violação grave da soberania venezuelana e do........

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