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Irã: soberania sob cerco, sociedade sob pressão

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tuesday

Poucos países condensam com tanta nitidez as contradições centrais da ordem internacional contemporânea quanto o Irã. O que hoje se manifesta como crise econômica prolongada, protestos sociais recorrentes e risco permanente de guerra regional não pode ser compreendido sem um retorno rigoroso à história — nem sem nomear explicitamente quem impõe as sanções, como elas operam e quem paga o preço. Tratar o caso iraniano como um problema recente, isolado ou exclusivamente ideológico é falsear o debate e obscurecer suas raízes estruturais.

Convém lembrar, antes de avançar, que o Irã é herdeiro de uma das mais antigas formações civilizatórias do mundo. Conhecido como Pérsia até 1935, quando o nome Irã passou a ser adotado oficialmente no plano internacional, o país foi, por séculos, centro de impérios, redes comerciais e produção intelectual muito antes da ascensão europeia.

Essa longa história de soberania estatal e identidade cultural própria moldou uma relação profundamente ambígua com o Ocidente moderno: abertura seletiva, resistência persistente e rejeição recorrente à subordinação externa. Ignorar essa dimensão é reduzir o Irã a um “problema contemporâneo”, quando ele é, na verdade, um Estado com memória histórica longa, orgulho nacional consolidado e aversão estrutural à tutela estrangeira.

É justamente essa herança — combinada à experiência traumática do século XX — que ajuda a compreender por que a ruptura de 1979 assumiu a forma que assumiu. A Revolução Iraniana não surgiu no vazio, nem foi um desvio teocrático fora do tempo. Ela foi, em sua origem, uma reação política, social e nacional a décadas de interferência externa e autoritarismo interno, cristalizadas no regime do xá Mohammad Reza Pahlavi, sustentado política, militar e economicamente pelos Estados Unidos desde o golpe de 1953 que derrubou o governo nacionalista de Mossadegh.

O projeto do xá combinava autoritarismo extremo, repressão sistemática e uma modernização econômica subordinada ao capital estrangeiro. O crescimento existia, mas era concentrado; a industrialização avançava, mas dependente; o petróleo financiava o Estado, mas não construía soberania popular.

A revolução foi plural: clérigos, trabalhadores, estudantes, setores de esquerda e nacionalistas compartilhavam a rejeição à tutela externa e à ordem social excludente. A consolidação do poder religioso não foi inevitável; resultou de uma correlação de forças moldada por décadas de repressão política e pela ausência de instituições democráticas capazes de mediar o conflito social.

Logo após a revolução, o Irã foi lançado na Guerra Irã–Iraque (1980–1988), um conflito devastador, estimulado e financiado por potências ocidentais e........

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