O que é a (contra)revolução do senso comum?
Propõe analisar o que Donald Trump, em seu discurso de posse, chamou de “revolução do senso comum”, responsável pela sua vitória e também como o bolsonarismo tem relação com tudo isso.
“Seu pai te bateu hoje, meu filho, porque seu pai tem sangue de Coca-Cola correndo na veia, um dia, meu filho, você vai saber isso e entender seu pai… (Roberto Drummond, Sangue de Coca-Cola, 1981, p.19)”
As modernidades capitalistas
Em 2002, o filósofo equatoriano-mexicano, Bolívar Echeverría, apresentou, no Latein-Amerika Instituto, em Berlim, o seu ensaio “La clave barroca de América Latina”, no qual defendeu que modernidade capitalista (quase uma redundância) nunca foi unidimensional, mas múltipla, definindo-se no processo de sua constituição como: i) a do ethos clássico; ii) a do ethos romântico; iii) a do ethos realista; iv) e a ethos barroco.
A modernidade do ethos clássico e a modernidade do ethos romântico podem ser interpretadas como opostos que se encontram, do seguinte modo i) a primeira, a clássica, constituiu-se a partir do capitalismo da Europa do Norte e se constituiu por meio da ideologia do progresso sem fim, compreendido como uma fatalidade, como uma universalidade objetiva, inumana e abstrata; uma terceira pessoa transcendental que se apresenta literalmente como um Deus ex machina, isto é, como um Deus surgido da máquina ou das forças produtivas do capital, devendo ser reverenciado, acatado, obedecido, a partir da seguinte premissa: não há o que fazer; ii) a segunda, a romântica, é a contraparte da primeira, pois se demarca pelo fetichismo da ação individual subjetiva, confinando-a na mística do herói isolado, romanticamente exaltado, desde que não ouse questionar o lado impessoal e determinista da modernidade clássica.
A modernidade do ethos realista (realismo no sentido pragmático de, mais que acatar, apear na ordem existente, ancorada na reprodução ampliada do capital) é propriamente a modernidade norte-americana e tem como base a autorreprodução sequestrada do valor, assim: dinheiro nu = trabalho nu. Quer dizer: o trabalho deve ser, no limite, nu, sem direitos, sem resistência, absolutamente alienado, não havendo trabalho mais nu que o do tráfico de drogas, dos golpes de Estado, dos saqueios, das guerras, do fomento multitudinário de todas as formas de violência, imagináveis ou inimagináveis.
A fórmula de Karl Marx para definir o valor, “trabalho socialmente necessário para a produção da mercadoria” (MARX, 2013, p. 162), concretiza-se, na modernidade realista estadunidense, como “trabalho socialmente nu” para servir de lastro ao dólar desacoplado da realidade ou, dizendo de outro modo, bombardeando-a.
Há, a propósito, duas doutrinas que definem o axioma “dinheiro nu = trabalho nu” da modernidade realista estadunidense. A primeira é a Doutrina Monroe de 1823; nosso inferno particular, pois impõe a todos os países ao Sul do Rio Bravo a tragédia sem fim do trabalho nu do espaço vitalmente mortal da oligarquia ianque. A segunda, extensão mundial da primeira, é a doutrina Truman, que transformou o Lebensraum de Hitler no espaço vital planetário norte-americano, quando, na Grécia arrasada pela guerra, decretou em 1945: “O mundo é dos americanos!”.
O Corolário Trump, também chamado de Doutrina Monroe, é a atualização do ethos realista da Doutrina Monroe de 1823 da seguinte forma: as Américas são da unipolaridade estadunidense e nem China, nem Rússia, nem Brics , nem qualquer forma de multipolaridade serão permitidas fora do “dólar nu = superexploração nua dos povos de Nuestra América!”
O ethos barroco, por sua vez, detém outra racionalidade; é popular, é uma questão de povo, e assim foi definido por Echeverría: “O ethos barroco, tão presente nas sociedades latino-americanas ao longo de sua história, caracteriza-se por sua fidelidade à dimensão qualitativa da vida e do mundo, por sua negativa em aceitar o sacrifício da vida em nome da valorização do valor” (Echeverría, 2002, p. 10, tradução nossa).
O ethos barroco é o dos valores de uso em face à dominância dos valores de troca no capitalismo, dizendo fundamentalmente respeito à modernidade dos excluídos das modernidades clássica, romântica e realista.
É a modernidade ao rés-do-chão, cotidiana, popular do povão.
O que é o dispositivo?
Replicando à sua maneira a filosofia de Michel Foucault, Gilles Deleuze, em “O que é o dispositivo?” (1988), assinalou a propósito o seguinte: “Os dispositivos, pois, têm por componentes linhas de visibilidade, de enunciação, linhas de forças, linhas de subjetivação, linhas de rachadura, de fissura, de fratura, todas as quais se entrecruzam e se emaranham, umas que dão mais uma vez noutras, ou que suscitam outras, através das variações ou mesmo das mutações de agenciamento” (Deleuze, 2016, p. 363).
As linhas de visibilidade (o que pode ser visto e o que é ocultado) e as linhas de enunciação ( o que se diz e o que não pode........
