Excluir Deus do debate público, um ato de paz
Diz-se que a civilização ocidental nasceu no exato momento em que o grito das Erínias — divindades que representavam a vingança religiosa cega e a punição implacável — foi silenciado pelo veredito de um tribunal de cidadãos comuns. Na Atenas descrita pelo dramaturgo grego Ésquilo, a humanidade deu um salto civilizatório ao trocar a “justiça de sangue”, baseada em dogmas e castigos divinos, pela justiça da pólis (a cidade). Ao criar o Areópago, o primeiro tribunal formado por homens, a política se estabeleceu como o único território onde nós, e somente nós, decidimos o nosso destino através da lei e da razão, e não pelo medo do sobrenatural. Pois bem, observando o Brasil nestas primeiras semanas de 2026, a sensação amarga que nos invade é a de que estamos fazendo o caminho inverso, desmontando o tribunal da razão para devolver o chicote às fúrias teológicas. A defesa do Projeto de Lei nº 2.162, conhecido como PL da Dosimetria, mobilizada pela extrema-direita e setores evangélicos no parlamento e nos púlpitos Brasil afora é o atestado de óbito de uma certa ideia de República que tentamos, combalidos, sustentar desde 1988.
É óbvio que a democracia não é o espaço do consenso, mas da sua busca. E isso não é possível sem que haja conflito. Mas estamos diante de uma grave deformação do debate político. Onde antes buscávamos discussões sobre a taxa de juros ou a reforma agrária, agora somos convidados a participar de um tribunal de fúrias teológicas, onde o adversário não é alguém que erra no cálculo, mas um pecador que afronta o divino.
A contradição é de uma obviedade gritante, embora o silêncio em torno dela seja perturbador. O Estado é laico — ou ao menos assim reza a nossa combalida Constituição. O cidadão ateu, o agnóstico, o fiel de religiões de matriz africana ou o católico que separa a missa da urna, todos estão pagando a conta da própria exclusão política. Tendemos a crer que a laicidade é um escudo passivo, mas a realidade nos mostra que ela é uma fronteira em constante erosão, especialmente quando a máquina pública se torna o combustível para projetos de poder que se dizem legitimados por uma instância superior às leis humanas.
Permita-me uma breve digressão, talvez influenciada por uma leitura tardia de Max Weber: a política exige o que chamamos de “desencantamento do mundo”. Quando o encanto (ou o dogma) retorna ao centro da arena, a política morre por asfixia. O debate democrático pressupõe que ambos os lados podem estar errados e que a verdade é uma construção precária e “revisável”. Ora, como se estabelece um diálogo com alguém que se apresenta como um “enviado de Deus”? Contra a........
