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A escala 6x1, eixo de uma nova hegemonia para a batalha de 2026

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28.12.2025

O calendário político brasileiro, esse moinho que tritura reputações e esperanças com a mesma indiferença com que o mercado financeiro observa a oscilação do câmbio, já aponta para o horizonte de 2026. Não se trata apenas de uma disputa pela sucessão ou continuidade no Palácio do Planalto; trata-se, em última análise, de um plebiscito sobre a alma do projeto nacional. E, no centro desse furacão que se avizinha, um dado aparentemente setorial: a escala de trabalho 6x1. Esse tema emergiu da nova sociedade do cansaço (em alusão ao conceito de Byung-Chul Han) para se tornar o epicentro de uma batalha discursiva que pode, finalmente, oferecer ao campo progressista a chave para desatar o nó górdio da polarização.

O levantamento da Quaest, publicado neste crepúsculo de 2025 pelo jornal O Globo, é mais do que uma peça estatística; é um diagnóstico de exaustão civilizatória. Quando 57% dos eleitores autodeclarados bolsonaristas e 73% declarados “independentes” manifestam apoio ao fim da jornada de seis dias de trabalho por um de descanso, algo se quebrou no monólito ideológico que sustentou o bolsonarismo e suas derivações. O curto-circuito é evidente: a liderança conservadora, encastelada em um liberalismo de salão que flerta com o arcaísmo escravocrata, chama a medida de “comunista”. Enquanto isso, sua base eleitoral — o motorista de Uber que aspira a ser frota, a vendedora de cosméticos que sonha com a loja própria, o operário que se sente um “colaborador” — agoniza por exaustão.

Vivemos a era da “liberdade coercitiva”. Se antes o capitalismo operava pela negatividade do “tu deves”, hoje ele triunfa pela positividade do “nós podemos”. É a tragédia do Cisne Negro transposta para as periferias brasileiras: uma violência ideológica onde o carrasco e a vítima habitam o mesmo corpo. O trabalhador em escala 6x1, bombardeado por discursos de empreendedorismo de si, não se vê mais como um explorado (ele até detesta quando se fala em CLT), mas como um projeto em constante autossuperação. O problema é que essa busca pelo “desempenho total” não admite pausas. O colapso psíquico (ou burnout) não é um erro sistêmico, é o seu resultado final: a exaustão de quem, tal qual a personagem de Aronofsky, só consegue se realizar na autodestruição.

Para o governo Lula e para a construção de uma base de esquerda que não seja apenas um apêndice tático contra........

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