"Crentes" Niilistas e Conservadores em Conserva
247 - O niilismo do século XIX nasceu como diagnóstico de uma crise profunda da civilização ocidental. Em Nietzsche, a “morte de Deus” não era uma celebração do ateísmo vulgar, mas o reconhecimento de que os fundamentos absolutos da moral haviam perdido sua força. O problema não era simplesmente não crer, era perceber que os valores supremos já não convenciam. A base metafísica rachara.
Na Rússia de Ivan Turguêniev, o niilista era o jovem que rejeitava tradição, autoridade e religião em nome de um materialismo científico radical. Já no século XX, com as guerras e o colapso das promessas do progresso, o niilismo assume feição existencial. Em Heidegger e Sartre, a questão torna-se ontológica: o homem lançado num mundo sem garantias, responsável por criar sentido onde não há fundamento prévio.
Esse niilismo clássico era dramático, mas lúcido. Sofria com a perda de uma referência. Havia consciência da crise.
No século XXI, porém, o fenômeno assume outra forma. Não é apenas a perda do fundamento moral ou metafísico, é a erosão completa da própria autoridade do real.
O conceito de “pós-verdade”, popularizado em 2016 pelo Oxford Dictionaries, descreve circunstâncias em que fatos objetivos se tornam menos influentes que emoções e crenças pessoais na formação da opinião pública. "Eu concordo com quem concorda comigo", contra todos os fatos e evidências.
Aqui ocorre um deslocamento decisivo: não se afirma explicitamente que a verdade não exista; ela simplesmente deixa de importar.
Se o niilismo do século XIX era moral e metafísico, o atual tende a ser epistemológico. O fato transforma-se em........
