O estranho caso da mãe que abandonou três filhos como reflexo de uma sociedade doente. Opinião da advogada Rita Garcia Pereira
Provavelmente à data em que lerem estas linhas, o caso da mãe e do padrasto franceses que abandonaram três filhos, dois deles à beira da estrada em Portugal, não tendo já o encanto da novidade, já terá sido arredado da atenção mediática e prontamente substituído por um qualquer outro que tenha a mesma capacidade de provocar sentimentos fortes no público1.
Ora, é verdade que situações em que pais abandonam filhos à sua sorte sempre existiram e existirão, creio, normalmente em situações de grande miséria humana.
O que, porém, choca neste caso não é apenas o pormenor tortuoso da pretensa brincadeira, deixando-se as duas crianças vendadas, de mochilas preparadas, à procura de um inexistente brinquedo, perto de uma estrada nacional onde facilmente poderiam ter sido atropeladas. Pelo contrário, o mais chocante é a total impassividade de uma mãe que abandona os seus filhos, sabendo-os incapazes de se defenderem seja do que for, como se de objetos se tratassem, e segue viagem, para ficar horas na mesma esplanada a quilómetros de distância e alheada do que acabara de fazer.
Contudo, ao contrário da maior parte das análises que se fizeram, considero que este caso é, apenas, um extremar de uma desconexão de toda uma sociedade que, seguindo igualmente o seu caminho, o faz completamente absorta, indiferente à dor alheia, com a qual se habituou a conviver, esperando apenas que não lhe toque à porta2.
Na maior parte das vezes, a atual solidariedade faz-se muito no........
