"A vida dos pobrezinhos é um mistério"
Saímos das estradas mais movimentadas. Andámos por muito tempo até chegar a uma colina um pouco isolada. Lá em cima, um punhado de pequenos prédios iguais, com não mais de quatro andares e um ar desolado sob o céu cinzento e ventoso. “É aqui? É mesmo longe de tudo”, perguntei ao fotógrafo, enquanto subíamos a colina. Tocámos à campainha e subimos a pé vários lanços de escadas, galgando os degraus de mármore claro, frios e húmidos. A porta abriu-se e o nosso olhar quase conseguiu abarcar toda a casa. Era pequena. Na sala, para onde nos convidaram a entrar, havia um monte de roupa equilibrado em cima das costas do sofá. Não estava desarrumado. Era roupa acabada de lavar, dobrada, sem outro sítio onde estar.
Estávamos ali porque eu tinha escrito a história de Liliana, uma mãe a quem retiraram oito filhos porque era pobre. Nas semanas a seguir a essa história ser impressa, recebi muitos emails e telefonemas. Houve até uma mãe que veio ter comigo, à redação do jornal, garantir que tinha sido também por esse delito de pobreza que a tinham afastado dos filhos. E agora estava ali em frente a mais uma mulher, ainda jovem, mas já com a cara marcada e três filhos de uma relação anterior, que a tinha feito fugir e pedir ajuda. Vítima de violência doméstica, com dificuldades em pôr comida na mesa dos filhos, pediu auxílio na escola onde andavam as crianças e, em troca, puseram-lhe em cima um foco de luz demasiado pesado, que revelava todas as falhas, todos os erros. O mais velho começou a dar chatices na escola e passado pouco tempo estava institucionalizado.
Mas não era por isso que eu ali estava. A rapariga tinha refeito a vida com um novo companheiro, que estava ali ao seu lado. Quiseram ter mais um bebé. A criança nasceu, mas........
