menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A geração que desafia a promessa portuguesa

38 0
30.06.2026

A história das democracias não é feita apenas de eleições, parlamentos, constituições ou alternâncias de poder. É feita também de expectativas coletivas. Os regimes democráticos consolidam-se quando os cidadãos acreditam que as instituições são capazes de proteger direitos, assegurar estabilidade e criar condições para que a geração seguinte viva melhor do que a anterior. A força de uma democracia não depende exclusivamente das regras que a organizam. Depende igualmente da confiança que os seus cidadãos depositam no futuro.

Durante grande parte dos últimos cinquenta anos, a democracia portuguesa beneficiou dessa confiança. Desde a Revolução de Abril até à integração europeia, passando pela expansão da educação, pela modernização económica e pela melhoria generalizada das condições de vida, o País atravessou uma transformação sem precedentes na sua história contemporânea. As crises não desapareceram, as desigualdades persistiram e muitos problemas estruturais resistiram ao tempo. Ainda assim, a trajetória foi inequívoca. Para uma parte significativa da população, a democracia coincidiu com uma ampliação real das oportunidades e com uma melhoria consistente das condições de vida.

Essa realidade produziu uma consequência política frequentemente subestimada. A democracia portuguesa não encontrou legitimidade apenas na liberdade de escolher governos. Consolidou-a também pela capacidade de transformar a vida das pessoas.

Milhões de portugueses alcançaram níveis de educação, rendimento e qualificação superiores aos das gerações que os antecederam. O ensino superior deixou de ser um privilégio reservado a uma minoria. O acesso à propriedade da habitação expandiu-se. A entrada em profissões qualificadas tornou-se mais acessível. A integração europeia abriu horizontes económicos, culturais e profissionais impensáveis poucas décadas antes. A democracia passou, assim, a estar associada não apenas à liberdade política, mas também à possibilidade concreta de progresso.

O sucesso desta associação tornou-a quase invisível. A ideia de que os filhos viveriam melhor do que os pais deixou de ser encarada como uma conquista........

© Visão