Crónicas elegíacas
Há quem não escreva crónicas elegíacas. Ou nem sempre. Não é por falta de mortos, evidentemente. Mortos há sempre. E, quando o morto é suficientemente conhecido, também não faltam cronistas. Isto é um problema para aquela espécie de escritor para quem a unanimidade produz logo um efeito adverso. Se toda a gente escreve sobre um determinado assunto, esse assunto quase de certeza deixa de lhe interessar. Se vinte e sete articulistas insistem, na mesma semana, que o morto era extraordinário, o cronista começa a achar que talvez seja melhor escrever sobre outra coisa qualquer.
O prazer infantil que se tira em não fazer aquilo que os outros fazem é, naqueles que para esse prazer se inclinam, uma vaidade extremamente resistente. Para o cronista que está apostado em preservar na sua voz um módico de singularidade, não querer parecer-se com mais ninguém é uma vantagem — e uma boa maneira de começar. Para o que não quer, o problema não se levanta. O que quer pode escolher ficar em silêncio. Mas tem, também, uma saída honrosa: escrever........
