menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O país que ama livros, mas despreza quem os escreve. Por José Paulo Santos

22 0
15.05.2026

Portugal gosta de se olhar ao espelho como país de poetas, de cronistas, de romancistas maiores. Evoca Camões, Fernando Pessoa, Sophia, Saramago como quem recita uma ladainha identitária. Repete, com orgulho quase automático, que “somos um país de cultura”. O problema é que, no mercado real do livro, essa ideia nobre desaba à primeira folha de contrato. O autor português, hoje, é glorificado na retórica e anémico na prática.

Comecemos pelos números, porque a elegância da crítica não dispensa a frieza dos factos. A esmagadora maioria dos contratos editoriais em Portugal fixa os direitos de autor entre 8% e 10% do preço de capa. É um valor assumido como padrão do setor e amplamente contestado por criadores, associações e petições públicas dirigidas ao Parlamento e ao Ministério da Cultura. Não se trata de uma perceção subjetiva; trata-se de um modelo estrutural em que o criador é o elemento menos remunerado de toda a cadeia do livro.

Chamemos-lhes pelo nome exato: migalhas.

Num livro vendido a 18 ou 20 euros, o autor recebe pouco mais de um euro por exemplar, pago meses ou anos depois, sem salário mínimo, sem proteção laboral, sem estabilidade. Todo o risco criativo é seu. Todo o risco financeiro, também. Ainda assim, o sistema insiste em chamar a isto “parceria”.

O paradoxo torna-se ainda mais gritante quando se olha para o mercado no seu conjunto. Em 2024, segundo dados da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), baseados na auditoria da GfK, o mercado livreiro português cresceu cerca de 9% em valor, ultrapassando os........

© Visão