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Discriminação de género: uma perversão religiosa

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25.02.2026

A desigualdade salarial entre homens e mulheres, para trabalho igual, persiste no nosso país. Na prática, há empregadores a considerar que o trabalho duma mulher vale menos do que o de um homem, no desempenho das mesmas funções. Isso não decorre de qualquer tipo de avaliação de desempenho ou de produtividade, mas sim dum preconceito ainda muito arreigado na sociedade portuguesa.

Há umas décadas considerava-se que o lugar das mulheres era em casa, a tratar dos filhos e com as tarefas domésticas exclusivamente a seu cargo, enquanto o marido fazia pela vida fora de portas. No tempo do anterior regime elas podiam ser professoras e enfermeiras mas precisavam de uma autorização especial do governo para casar. Apenas tinham um pouco mais de liberdade na vida artística, tanto no teatro como na música.

Com a implantação do regime democrático, deixaram de estar subjugadas aos maridos, que até aí detinham tutoria legal sobre elas – não podiam abrir uma conta bancária nem ausentar-se para o estrangeiro sem autorização deles – e passaram a poder aceder ao divórcio, mesmo tendo celebrado casamento religioso, o que era quase obrigatório, já que o Portugal do Estado Novo era um país católico segundo a lei.

Foi-se estranhando que elas tivessem passado a entrar nas forças armadas e de segurança, que pilotassem autocarros, táxis e aviões, que assumissem cargos de gestão nas empresas de todos os setores económicos e de direção na administração pública. Elas entraram em força nas universidades e hoje são a maioria dos estudantes e boa parte do corpo docente das mesmas. Foi esse investimento na formação académica que mudou o panorama por completo.

Segundo um estudo da CGTP: “Em novembro de 2025 a força de trabalho feminina era composta por 2.043.911 mulheres, das quais 58,7% recebia uma remuneração base até 1000 euros brutos por mês. Ou seja, quase seis em cada dez. Destas,“411 milhares auferiam apenas o salário mínimo nacional, no valor de 870 euros, representando 20,5% do total, ou seja, uma em cada cinco trabalhadoras”.

Mais. Segundo dados do INE, as trabalhadoras com vínculo precário recebem em média menos 20% dos que as outras e menos 33% no caso do falso trabalho independente. Quanto às trabalhadoras com qualificações mais elevadas mantém-se um diferencial. Acresce que em 2025 “cerca de 140 mil trabalhadoras tinham uma segunda atividade profissional, correspondendo a 5,4% do total do emprego feminino” e “uma em cada dez trabalhadoras é pobre”, situação que, na opinião da central sindical, passaria para o dobro se não fossem os apoios sociais.

Os conceitos sociais foram talhados ao longo da história dos povos. O desenvolvimento cultural que foi determinando os papéis sociais de género baseou-se em leituras e conceitos de cada época. Por exemplo, e apesar do mundo patriarcal vigente no Antigo Israel, a condição feminina hebraica era mais favorável do que a dos povos pagãos seus contemporâneos na região cananeia e no Levante.

Com a emergência da fé cristã, o peso do patriarcado manteve-se pujante, apesar de Jesus de Nazaré sempre ter colocado homens e mulheres no mesmo nível de dignidade humana e social, e de S. Paulo ter feito o mesmo, apesar de alguns arroubos que procuravam ajustar a vivência das comunidades cristãs à cultura da época.

O Evangelho é claro. Não há diferenças entre homens e mulheres no reino de Deus. Eles e elas eram batizados do mesmo modo, eles e elas eram discípulos, eles e elas eram diáconos, eles e elas eram apóstolos (veja-se o caso de Júnia). Eles e elas receberam o dom do Espírito Santo no Dia de Pentecostes, em Jerusalém. Eles e elas foram martirizados durante as vagas de perseguição verificadas no Império Romano. Depois, a estrutura eclesial abafou-as.

Tudo quando se possa alegar relativamente à discriminação de género no âmbito da fé não passa de motivações machistas ou misóginas, na tentativa de trazer os modelos do mundo antigo para a contemporaneidade. Ou a dificuldade de mudar práticas eclesiais seculares que fizeram escola e formataram mentalidades.

A civilização judaico-cristã cavou este fosso e tarda em deixá-lo para trás. E se algumas igrejas cristãs persistem na discriminação de género, como não compreender que a sociedade tenda a fazer o mesmo, incluindo no mundo do trabalho?

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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