Vamos lá cambada
Portugal foi eliminado do Mundial na segunda-feira. Perdemos com a Espanha por 0-1, em Dallas, com um golo ao minuto 90, quando já toda a gente fazia contas ao prolongamento. Vi o País parar: cafés cheios, buzinas a postos, bandeiras penduradas nas varandas, gente que não distingue um fora-de-jogo de um pontapé de canto a sofrer cada lance como se a vida lhe fosse nisso. E, no fim, aquele silêncio de quem volta para casa com o cachecol ao pescoço e o sonho adiado mais uma vez.
Mas houve outro Portugal-Espanha nesse mesmo dia, e esse não teve transmissão em direto. Na serra do Caramulo combatia-se ainda o maior incêndio do ano, que deflagrou em Vouzela na madrugada de 2 de julho e alastrou a Oliveira de Frades, a Tondela e a Águeda, atingindo freguesias como Valongo do Vouga, com aldeias evacuadas, feridos e o continente inteiro em situação de alerta até à meia-noite do próprio dia do jogo. Na linha da frente, ao lado dos nossos bombeiros, estavam militares espanhóis da Unidade Militar de Emergências, vindos de León com viaturas, drones e maquinaria pesada, ao abrigo do Mecanismo Europeu de Proteção Civil. Perdemos com a Espanha em Dallas ao minuto 90 e, entretanto, na encosta do Caramulo, eram espanhóis a defender as nossas aldeias. O futebol continuou, como devia, que ninguém quer bolas paradas por decreto. O que me faz espécie é outra coisa: é o resto nunca chegar a começar.
Não venho fazer o luto da eliminação, nem torcer o nariz ao futebol, que é coisa que nunca me passaria pela cabeça. Venho falar de uma canção. Em 1986, Herman José e Carlos Paião escreveram uma marcha para o Mundial do México que ficou no ouvido de gerações inteiras: “Vamos lá cambada”. Em 2022, a própria Federação Portuguesa de Futebol foi buscá-la para hino oficial de apoio à seleção, e um Alvalade cheio cantou-a a uma só voz. É dessa voz que quero falar, porque ela existe, está afinada e junta-se num instante........
