Não é quem chega
Confesso o instinto. Quando li que Portugal tinha casos de sarampo este verão, e que alguns tinham vindo de fora, pensei o que muita gente pensa e poucos escrevem: quem chega que traga o boletim de vacinas. Que seja obrigatório. Pareceu-me evidente. Depois fui ver os números, e os números não me deram razão. Deram-me uma razão melhor.
Portugal tem nove casos confirmados de sarampo este ano. Três importados; os outros nasceram cá ou estão em investigação. O primeiro caso importado do ano foi uma criança de Lisboa que apanhou o vírus no Reino Unido. Não foi alguém que veio. Foi alguém que foi e voltou. “Importado”, em epidemiologia, quer dizer que a infeção aconteceu fora do país. Não diz nada sobre o passaporte de quem a trouxe.
E nove casos são a exceção europeia. Espanha passou de 11 casos para cerca de 400 em dois anos, e perdeu em janeiro o estatuto de país livre de sarampo. O Reino Unido perdeu-o também. A Áustria também. O vírus chega a Espanha e a Portugal exatamente da mesma maneira, de avião, e as fronteiras são as mesmas. A diferença não está na fronteira. Está em quem, do lado de cá, não está vacinado. A Organização Mundial de Saúde diz que é preciso vacinar 95% das crianças para travar o sarampo. Portugal está sete décimas acima dessa linha. Um caso importado só se transforma em surto onde encontra gente por vacinar. Onde não encontra, morre sozinho.
Quem é, então, que não vacina em Portugal? Aqui a resposta contradiz o meu instinto de verão. Um estudo europeu, o projecto VAX-TRUST, coordenado na parte portuguesa pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, foi entrevistar pais que recusam ou adiam as vacinas dos filhos. O retrato é nítido: ensino superior, capital económico “relativamente elevado”, um fenómeno........
