Dez fatos para rebater fake news de que Palmeiras é fascista
Dez fatos para rebater fake news de que Palmeiras é fascista
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Texto escrito em colaboração com o jornalista Paulo Motoryn
É difícil saber atualmente a verdadeira dimensão de uma polêmica germinada em certa bolha de rede social. No futebol, elas nascem e morrem diariamente, aos montes. O mais recente exemplo é - ou deveria ser - banal: a tradicional entrega de uma camisa personalizada a um artista que se apresenta no Allianz Parque. No caso do show de Bad Bunny, o nome "Benito" (Benito Antonio Martínez Ocasio é seu nome verdadeiro) e o número "64" (referência familiar do cantor) foram transformados em insinuação política envolvendo o golpe de 1964 e o ditador italiano Benito Mussolini.
Note-se: o post em questão foi publicado pela conta oficial do Allianz Parque, e não pelo Palmeiras.
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Além de ofender a torcida, acusações do tipo ignoram e distorcem a história, uma prática muito mais próxima do fascismo do que se costuma admitir. Se aplicarmos a régua de episódios lamentáveis envolvendo homenagens ou proximidade com figuras do regime italiano, o debate precisa ser honesto e amplo - não seletivo ou clubista.
Como lembrou o historiador Fernando Galuppo, em texto de resposta a um post de Antonio Tabet, uma capa do Jornal dos Sports de janeiro de 1938 registra Bruno Mussolini sendo homenageado no Rio de Janeiro antes de um Fla-Flu, com direito a desfile dos atletas rubro-negros empunhando a bandeira da Itália fascista e a presença do filho do ditador nas arquibancadas.
Por óbvio, a recepção institucional não transforma o time rubro-negro em " fascista". Assim como não define o São Paulo a tentativa de dirigentes do clube de organizar uma homenagem à esquadrilha fascista "Sorci Verdi", liderada por Bruno Mussolini, buscando envolver o antigo Palestra Italia - o que foi recusado pelo clube alviverde.
No caso do Corinthians, a documentação histórica aponta que Rafael Perrone, fundador e primeiro capitão do clube, foi fichado em 1945 pela Delegacia de Ordem Política e Social como fascista. Nascido no sul da Itália e radicado em São Paulo no início do século XX, Perrone aparece nos registros policiais dentro do contexto mais amplo de monitoramento de imigrantes italianos e de suas associações políticas durante e após o Estado Novo.
Outros nomes ligados à direção corintiana também constam em registros da época: Giuseppe Tipaldi foi identificado, em carta publicada em 1925 no jornal Il Moscone, como presidente honorário do Corinthians e vice-presidente do Fascio di San Paolo, além de posteriormente fichado no Deops como fascista.
Há inúmeros outros episódios históricos envolvendo o Palmeiras e seus rivais que, se recortados de forma isolada e descontextualizada, poderiam sustentar a tese de que determinado clube é "de direita" ou "de esquerda". O problema não é analisar a existência desses fatos, mas fazer isso de maneira simplista.
A xenofobia implícita na relação italiano e fascista, assim como alemão e nazista ou tantas outras, também não pode ser ignorada.
Em uma realidade tão complexa quanto a brasileira, especialmente falando de clubes com 10, 15, 30 milhões de torcedores, chega a ser risível a ideia de colocá-los todos sob uma bandeira política, cultural, identitária. Imaginem estigmatizar toda uma torcida porque tal presidente foi machista, racista, bandido, ou todas as anteriores?
No caso específico do Palmeiras, seguem dez fatos históricos objetivos que contam uma história bem diferente daquela que conseguiram enxergar em uma homenagem do Allianz Parque a Bad Bunny.
1) O estatuto do clube sempre vedou manifestação político-partidária
O Estatuto Social do Palmeiras sempre estabeleceu a proibição de manifestações de caráter político, religioso ou discriminatório dentro do clube. Essa diretriz institucional de neutralidade sempre foi um escudo contra tentativas de instrumentalização ideológica da agremiação.
2) Palestra Italia era divulgado por antigos jornais antifascistas
As pesquisas acadêmicas do historiador Micael Zaramella, autor do livro "No Gramado em que a Luta o Aguarda: Antifascismo e a Disputa Pela Democracia no Palmeiras", demonstram que, nas décadas de 1920 e 1930, o Palestra Italia era citado em periódicos antifascistas de italianos em São Paulo. Segundo sua análise, isso indica que o clube era palco de disputa interna dentro da coletividade italiana mesmo no auge do fascismo, quando a adesão ao regime por um clube de imigrantes poderia ser inevitável.
3) Tentativa de expor retrato de Mussolini na sede foi vetada
Também de acordo com a pesquisa de Zaramella, há registro histórico de pressão para que um quadro com a imagem de Benito Mussolini fosse exposto na sede social do clube. Antifascistas protestaram publicamente, e a exposição não ocorreu. O episódio é só mais um dos que reafirmam que não havia hegemonia fascista interna nem adesão oficial ao regime.
4) O clube mudou de nome em 1942 para evitar vinculação
Em 1942, após o Brasil declarar guerra ao Eixo e editar decretos que restringiam entidades associadas a Alemanha, Itália e Japão, o Palestra Italia abandonou a referência nominal à Itália.
Ao optar por um nome em português e afirmar sua identidade nacional, o clube rompeu formalmente com qualquer vínculo simbólico com o Estado fascista italiano. O gesto foi consolidado na chamada Arrancada Heroica, quando o time entrou em campo carregando a bandeira do Brasil no primeiro jogo sob o novo nome.
5) "Jogo Vermelho" de 1945 arrecadou recursos para o PCB
Em 13 de outubro de 1945, Palmeiras e Corinthians disputaram amistoso beneficente no Pacaembu em apoio ao Movimento Unificador dos Trabalhadores, o MUT, vinculado ao Partido Comunista do Brasil. A renda foi destinada à campanha eleitoral do partido. O episódio está documentado no livro "Palmeiras x Corinthians - 1945", assinado por Aldo Rebelo.
6) João Amazonas, dirigente histórico do PCB, escolheu o Palmeiras por sua história
Relatos históricos indicam que João Amazonas, liderança comunista brasileira, torcia para o Palmeiras em função da identificação do clube com o operariado paulistano. Amazonas está longe de ser um caso isolado: o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-presidente do Palmeiras, é assumidamente marxista.
7) O Palmeiras sediou o lançamento do 1º Congresso Nacional do PT em 1991
Em 30 de abril de 1991, o clube recebeu o ato de lançamento do 1º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores, com presença de lideranças como Luiz Inácio Lula da Silva. O evento foi monitorado por agentes do antigo SNI, conforme registros posteriores. O fato demonstra que o espaço social do clube foi utilizado por forças políticas democráticas na redemocratização.
8) Ademir da Guia, maior ídolo do clube, foi vereador pelo PCdoB
Ademir da Guia, principal ídolo da história palmeirense, exerceu mandato como vereador pelo PCdoB. Sua trajetória política pública é incompatível com a ideia de que o clube teria identidade fascista estrutural ou simbólica.
9) O clube incorporou atletas negros desde as primeiras décadas do século 20
Há registros da presença de atletas negros no Palestra Italia nas décadas de 1920 e 1930, inclusive em modalidades como atletismo e futebol — quando isso ainda era raro em clubes pelo Brasil racista. A convivência de imigrantes italianos e população negra na estrutura do clube é documentada por pesquisadores e por registros da imprensa da época.
10) A torcida do Palmeiras abriga diversos coletivos antifascistas, negros e LGBTQIA+
Atualmente existem grupos organizados de torcedores palmeirenses com identidade notadamente antifascista, além de coletivos negros e LGBTQI+. A existência dessas organizações demonstra a contínua pluralidade dentro da comunidade alviverde, independentemente do momento vivido pelo país ou de quem esteja à frente do clube.
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