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Porquê ter medo da morte se há flores nos cemitérios

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27.05.2026

O nome do homem de quem vou falar não dirá nada à maior parte das pessoas. Não saiu na televisão, não posou em capas de revistas, raramente foi convidado a comentar coisa nenhuma. Influenciou, ainda assim, mais músicos portugueses do que muitos imaginam, e meio panorama indie dos últimos trinta anos sabe-o, mesmo que o grande público nunca o tenha sabido. Chamava-se Carlos Gonçalves Pereira. Foi meu amigo durante quarenta anos. Foi encontrado morto na semana passada, em casa, em Santa Luzia, Odemira, com setenta e um anos. No seu funeral bateram-se palmas. Cantou-se. Houve gente a sair da capela como quem sai de um concerto com casa cheia.

Ele dizia brutal a tudo. A palavra, na sua boca, perdia a violência e ganhava qualquer coisa de oração, com aquele entusiasmo natural e intacto de um homem que viveu, atravessou e sobreviveu a quase tudo o que valia a pena atravessar.

Há figuras que entram numa década pela porta certa. Carlos entrou em 1979, numa Lisboa ainda meio aturdida do pós‑revolução, o punk inglês a desembarcar com dois anos de atraso, a juventude à procura de palavras novas para um país velho. Foi escolhido vocalista dos Corpo Diplomático, numas audições por onde também passou um cabeleireiro de Amares chamado António Variações. O Carlos passou. O Variações chumbou e, como era na altura mais conhecido pelo ofício do que pela voz, os rapazes da banda aproveitaram a presença dele e pediram‑lhe que lhes cortasse o cabelo. A história é absurda, é portuguesa e é verdadeira. Foi o próprio Pedro Ayres Magalhães quem a contou. Cinco anos depois, em 1984, esses........

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