O consenso fabricado, porque os média dizem sempre o mesmo
A sensação de que os órgãos de comunicação social dizem praticamente todos o mesmo sobre os temas centrais da vida política e cultural contemporânea é real e estranha. Ligar um canal, ler um jornal ou consultar uma plataforma digital produz, salvo honrosas exceções, a impressão de que todos apresentam as mesmas posições, os mesmos enquadramentos e as mesmas hierarquias morais. Num mundo que se proclama plural, diverso e crítico, esta uniformidade causa perplexidade.
Terão os órgãos de comunicação social perdido a independência? Trata-se de mera coincidência ou de uma conspiração rudimentar? Nenhuma destas explicações basta. O fenómeno resulta de um conjunto coerente de fatores estruturais que, combinados, geram uma paisagem mediática homogénea, previsível e moralmente alinhada.
Essa uniformidade revela-se de forma particularmente clara quando o assunto é Donald Trump, as alterações climáticas, Gaza, a guerra na Ucrânia, a União Europeia ou a agenda identitária contemporânea. A repetição não se limita aos factos: abrange sobretudo enquadramentos, juízos implícitos e categorias morais. A comunicação social não se contenta em transmitir informação; transmite uma leitura do mundo.
Estamos perante uma espécie de pravdização do espaço mediático, que representa um golpe sério na credibilidade e na qualidade da informação. O Pravda, recorde-se, foi durante décadas o principal jornal da União Soviética, órgão oficial de um regime que confundia consenso com verdade.
Várias razões estruturais explicam este fenómeno. Em primeiro lugar, a concentração mediática. Apesar da aparência de diversidade, múltiplos canais, jornais e plataformas pertencem a poucos grupos económicos. Esses grupos dependem das mesmas agências noticiosas internacionais, dos mesmos circuitos de legitimação e das mesmas redes de influência cultural. O resultado é a circulação quase automática de narrativas padronizadas. Muda o logótipo, mas não muda a estrutura, o vocabulário nem os pressupostos. O pluralismo é formal; a substância é praticamente única.
A este fator soma-se a hegemonia cultural liberal-progressista instalada no jornalismo ocidental nas últimas décadas. O campo mediático deixou de se conceber como espaço de........
