menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Dois mandatos desapontantes: Marcelo e normalização do país adiado

8 8
09.01.2026

No seu último discurso de Ano Novo, a 1 de janeiro de 2026, Marcelo Rebelo de Sousa recorreu a A Ilustre Casa de Ramires de Eça de Queiroz para pintar um retrato ambivalente dos portugueses. Invocando Gonçalo Mendes Ramires (o fidalgo generoso mas vítima de “fogachos e entusiasmos que acabam logo em fumo”, “desleixo”, “constante trapalhada nos negócios” e “esperança constante em algum milagre salvador”), destacou virtudes que, na sua visão, superariam defeitos ancestrais como o impulso efémero, a improvisação e a espera providencial. Reavivou assim a narrativa clássica do “país adiado”, agora com tom otimista: “ano novo, vida nova”, com mais Saúde, Educação, Habitação e Justiça. O diagnóstico seria aceitável se não partisse de quem, durante décadas, ocupou o centro do poder político e, nos últimos dez anos (2016-2026), o topo da hierarquia institucional.

Esta análise não se detém em traços pessoais, popularidade ou talento comunicacional. Avalia o mandato exclusivamente por três critérios institucionais: impacto estrutural no sistema político, uso substantivo dos poderes constitucionais e legado histórico no contexto dos cinquenta anos de democracia portuguesa.

Ao apresentar-se como observador externo, Marcelo omitiu a sua responsabilidade central na manutenção do sistema que critica. Diagnosticou impulsos curtos e esperança milagreira, mas calou que foi esse mesmo regime (por si legitimado, estabilizado e........

© SOL