O Matuto e a Sopa do Dia
O Matuto entrou num café sem grandes ambições. Queria apenas beber uma bica, talvez acompanhada duma torrada. Comer uma sopa. E contemplar em paz a condição humana. Era um projecto modesto. Quase monástico. Sentou-se junto à janela e pediu a ementa.
A empregada sorriu com simpatia.
— É só apontar o telemóvel para o código.
O Matuto seguiu a direcção do dedo da rapariga e deu com um pequeno quadrado negro impresso na mesa. Ficou a observá-lo como um antropólogo vitoriano diante de um ídolo tribal descoberto na Amazónia.
— Não tenho telemóvel — esclareceu.
A empregada pareceu momentaneamente surpreendida. Era como se o Matuto tivesse confessado não possuir rins ou sistema circulatório. Aos olhos da jovem, acabara de se juntar aos Amish, aos monges trapistas e a outras espécies em vias de extinção.
Durante alguns segundos instalou-se um silêncio embaraçoso. O quadrado negro permanecia entre ambos,........
