A regionalização não pode esperar muito mais
As sucessivas tempestades que, nas últimas semanas, assolaram Portugal continental deixaram um rasto de destruição, prejuízos e, sobretudo, uma sensação de descoordenação. Municípios exaustos, serviços centrais sobrecarregados, respostas que estão a chegar tarde a territórios isolados. Perante a calamidade, tornou-se evidente aquilo que há décadas evitamos discutir com seriedade: falta-nos um nível intermédio de poder político, maior do que o municipal e mais próximo do terreno do que o Estado central.
A regionalização não é apenas um debate académico ou um capricho constitucional adiado. É uma necessidade prática. Quando ocorrem cheias, incêndios, deslizamentos de terras ou crises económicas localizadas, a escala municipal revela-se muitas vezes insuficiente. E o Estado central, por definição distante e burocratizado, não consegue responder com a agilidade que as circunstâncias exigem. Entre ambos existe um vazio.
Mas reduzir a regionalização à gestão de catástrofes seria um erro. O verdadeiro argumento a favor das regiões administrativas é o desenvolvimento. Portugal é um dos países mais centralizados da Europa. Lisboa concentra poder político, decisões estratégicas e recursos humanos qualificados. O resultado está à vista: litoral saturado, interior desertificado, assimetrias persistentes.
O modelo a seguir não precisa de ser inventado. Basta olhar para França. As regiões administrativas francesas são colectividades territoriais com competências claras em desenvolvimento económico, planeamento do território, educação e transportes. Não têm poder legislativo, mas gerem orçamento, definem estratégias e executam políticas. Elaboram planos regionais de desenvolvimento económico, apoiam empresas, gerem a formação profissional, constroem e mantêm escolas secundárias, coordenam transportes regionais e são autoridades de gestão de fundos europeus.
Este último ponto é crucial. Em Portugal, os fundos estruturais continuam excessivamente dependentes de decisões centralizadas. Regiões com órgãos eleitos por sufrágio universal, dotadas de legitimidade política própria, poderiam assumir essa responsabilidade com maior eficácia e responsabilização democrática.
A regionalização no continente deve criar executivos regionais fortes, eleitos, com competências claras e fiscalizados por assembleias regionais. Não se trata de criar mini-Estados nem de fragmentar o país. Trata-se de descentralizar para governar melhor.
O mapa deve ser claro, coerente e funcional.
Uma Região do Norte e Douro, com capital no Porto, integrando cinco distritos: Grande Porto (Porto), Alto Minho (Viana do Castelo), Verde Minho (Braga), Trás-os-Montes Ocidental (Vila Real) e Trás-os-Montes Raiano (Bragança). Uma região com massa crítica económica e demográfica, capaz de potenciar a sua forte base industrial e exportadora.
Uma Região das Beiras, com capital em Coimbra, reunindo seis distritos: Beira Litoral Norte (Aveiro), Beira Litoral Central (Coimbra), Beira Litoral Sul (Leiria), Beira Interior Central (Viseu), Beira Interior Norte (Guarda) e Beira Interior Sul (Castelo Branco). Um território vasto, com realidades diversas, que precisa de coordenação estratégica para combater a desertificação.
Uma Região do Ribatejo e Oeste, com capital em Santarém, composta pelos distritos da Lezíria do Tejo (Santarém), Médio Tejo (Tomar) e Oeste (Caldas da Rainha), capaz de afirmar um eixo agro-industrial e logístico determinante.
Uma Região Metropolitana de Lisboa, com capital em Lisboa, integrando os distritos da Estremadura (Lisboa) e da Arrábida (Setúbal), assumindo a gestão integrada de uma área urbana que já funciona como sistema único.
Uma Região do Alentejo, com capital em Évora, organizada em quatro distritos: Alto Alentejo (Portalegre), Alentejo Central (Évora), Baixo Alentejo (Beja) e Alentejo Litoral (Sines), com capacidade para articular agricultura, energia, indústria e porto marítimo.
E, por fim, uma Região do Algarve, com capital em Faro, dividida nos distritos do Barlavento Algarvio (Portimão) e do Sotavento Algarvio (Faro), permitindo uma gestão mais equilibrada do turismo e do ordenamento costeiro.
Estas regiões teriam competências em desenvolvimento económico, formação profissional, transportes regionais, ordenamento do território, gestão de fundos europeus, ambiente e cultura. Sem poder legislativo próprio, mas com autonomia executiva e orçamento definido.
A alternativa é continuar como estamos: com CCDR tecnocráticas, sem legitimidade eleitoral, e com municípios isolados a enfrentar problemas que exigem escala regional. A regionalização não é um capricho identitário. É uma reforma estrutural para tornar o país mais coeso, mais eficiente e mais preparado para crises futuras.
As tempestades recentes mostraram que o modelo actual é insuficiente. O desenvolvimento desigual confirma-o há décadas. A questão já não é se Portugal precisa de regiões. A questão é quanto mais tempo estamos dispostos a perder antes de as criar.
Tiago Matos Gomes é presidente do movimento Partido Democrata Europeu e tem um artigo quinzenal no SAPO // O autor escreve com o antigo acordo ortográfico
