Inteligência Artificial, Trabalho XXI e o risco de uma transição feita à custa do emprego
Quando, a 25 de Novembro de 2025, escrevi no Blogue Risco Contínuo, sobre as reformas laborais propostas pelo Governo no âmbito do denominado Trabalho XXI, sublinhei um ponto que me parecia essencial: essas reformas surgiam num contexto de grande transformação económica e tecnológica, mas apresentavam-se sobretudo como um exercício de flexibilização das relações laborais, deslocando riscos do sistema para os trabalhadores, sem garantias sólidas de protecção, qualificação ou estabilidade futura. A contestação social que então se fez sentir não foi um fenómeno marginal ou ideológico, mas a expressão de um receio profundo quanto ao modelo de trabalho que estava a ser desenhado em nome da modernização.
Pouco mais de um mês depois, a 8 de Janeiro de 2026, o Governo aprovou a Agenda Nacional de Inteligência Artificial e o respectivo modelo de governação. À primeira vista, trata-se de uma resolução estratégica, orientada para a inovação, a competitividade e o aumento da produtividade da economia portuguesa. No entanto, uma leitura atenta do documento mostra que esta agenda não é apenas tecnológica: ela tem implicações directas e profundas sobre o trabalho, o emprego e a forma como as empresas se organizam. A pergunta impõe-se, por isso, com ainda maior acuidade do que em novembro: estaremos a preparar uma transição justa para o futuro ou a criar as condições para que essa transição seja feita, mais uma vez, à custa de quem trabalha?
Convém dizê-lo de forma clara desde já. Não sou contra a inovação tecnológica; sou contra a sua utilização quando serve para fragilizar quem trabalha, em vez de melhorar as suas condições de vida e de trabalho. Esta distinção é fundamental, porque o debate público tende demasiadas vezes a ser reduzido a uma falsa dicotomia entre progresso e resistência, quando o verdadeiro problema reside nas escolhas políticas e económicas que moldam a forma como a tecnologia é introduzida na........
