2026: O ano em que o Mundo testa os seus limites?
Ao longo da minha carreira militar vivi experiências muito distintas. Desde o comando de uma missão de paz no longínquo Timor-Leste, até à vivência directa dos horrores da guerra no Iraque. Tinha menos de trinta anos quando o Muro de Berlim caiu e a Guerra Fria começou, lentamente, a extinguir-se. Naquele momento, acreditei, como muitos, que a paz se tornaria uma realidade duradoura e que as guerras passariam a ser apenas conflitos localizados, extemporâneos, resultantes de interesses circunstanciais. Aprendi a conviver com o medo e com o absurdo da guerra. Vi o impacto do terrorismo nas ruas, no cidadão inocente e na criança mutilada. Fui responsável por traduzir actos hediondos em relatórios diários de missão, sempre com a convicção íntima da sua injustiça e que, um dia, tudo aquilo terminaria.
Hoje, chegado a 2026, esse sentimento mudou profundamente. Depois de um ano em que, em apenas quatro dias dos 365 de 2025, a Ucrânia não foi atacada por mísseis ou drones, a par de combates intensos e contínuos na linha da frente, sinto algo que nunca tinha sentido antes. Talvez seja a idade, talvez o facto de hoje analisar a geopolítica mundial apenas com base em fontes abertas ou, talvez, o facto de ser pai de três filhos, mas seja qual for a razão, o receio de que estamos mais perto da guerra do que da paz, é agora mais intenso e mais real.
O ano de 2025 foi dominado pela guerra na Ucrânia, pelo conflito no Médio Oriente e pela chegada intempestiva de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, um factor que veio agitar ainda mais um sistema internacional já profundamente abalado e a tender para a instabilidade. Tudo isto me leva a encarar 2026 como um ano potencialmente mais perigoso, em que cada conflito poderá ter implicações geopolíticas de dimensão sem precedentes. A percepção de que novos e mais sangrentos conflitos podem ocorrer nunca foi, para mim, tão acutilante.
O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, tem alertado repetidamente que o conflito com a Rússia pode escalar para uma guerra mundial. E, embora me considere um optimista por natureza, tenho hoje a desconfortável sensação de que essa possibilidade está mais próxima do que nunca. Nunca, como agora, um ditador esteve tão perto, por desespero, cálculo ou vontade de alterar o curso da História, de “dar, porventura, o passo errado”.
Terminámos 2025 com sinais claros de escalada híbrida: drones russos a testarem as defesas de países da NATO; ataques cibernéticos a ministérios, a serviços de emergência e a grandes empresas; navios russos envolvidos no........
