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Fim de 2025, 50 anos depois

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29.12.2025

Estamos no fim de 2025, tempo de balanços, e no panorama agrícola houve um tema que este ano me ficou marcado: os 50 anos da reforma agrária. Nasci em 1979, por isso fui demasiado pequeno para perceber o que se passava, mas grande o suficiente para sentir que aquilo existia, à minha volta, como um ruído de fundo.

Em 1975, no rescaldo do 25 de Abril, a reforma agrária transformou o Alentejo num palco de ocupações e conflitos. Deixou uma marca que ainda hoje vive nas conversas e na paisagem. Meio século depois, interessa-me menos reabrir julgamentos e mais perceber como essa história moldou a forma como olhamos para a agricultura. É por isso que volto às entrevistas deste ano de António Barreto. Não como bandeira política, mas como lente exigente para ler o presente.

Cresci em Beja, berço das ocupações, onde os murais de intervenção faziam parte da minha paisagem mental de criança. “A terra a quem a trabalha”, “Morte à Lei Barreto”, (a lei que travou e começou a inverter o processo), frases que eu não decifrava, mas que via e ouvia. Eram palavras pintadas e repetidas, eram conversas à mesa e na rua, eram a forma como uma região tentava explicar a si própria um tempo recente, ainda quente.

Leio recorrentemente as crónicas de António Barreto com admiração e sem medo da discordância. Li o seu livro “Anatomia de uma Revolução” e já na minha vida profissional e com as minhas vivências pessoais, fui juntando histórias com pessoas que estiveram em lados diferentes: de ocupantes a proprietários, de histórias de familiares de Catarina Eufémia a técnicos que me descreveram o ambiente tenso da época, como um antigo responsável da zona agrária de Beja que me contou que chegou a andar armado. António Barreto foi corajoso e é para mim um grande vulto intelectual.

Foi quem mais apareceu a comentar o tema este ano na comunicação social. Nas........

© Sapo