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O Brasil visto de dentro, sem pressa

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14.01.2026

Ser brasileiro no mundo, hoje, é carregar um passaporte e um espelho — mas raramente um espelho neutro. O reflexo costuma vir filtrado por um olhar aprendido: o de quem se mede menos pelo que é e mais pelo que os outros confirmam. Esse hábito antigo, conhecido como complexo do vira-latismo, não é simples autodepreciação. É um fenômeno social enraizado, uma pedagogia silenciosa que ensina o país a desconfiar do próprio valor antes mesmo de se olhar por inteiro.

Ele se manifesta como costume histórico. Desde cedo, o Brasil foi educado a imaginar que o centro do mundo estava sempre fora, que a régua legítima vinha de longe. Quando o reconhecimento externo aparece, respiramos aliviados; quando não vem, a dúvida vira regra íntima. Trata-se menos de baixa autoestima e mais de dependência simbólica: a ideia de que a grandeza precisa ser homologada. O resultado é perverso. Aprende-se a confundir crítica com autonegação, lucidez com desconfiança permanente.

O vira-latismo tem sofisticação. Não se apresenta como ressentimento, mas como “realismo”. Ele desestimula o entusiasmo, desautoriza o orgulho sereno e transforma a cautela em identidade. Não diz “não somos bons”, diz “não se empolgue”. E assim opera como censura sem censor, corroendo a confiança cultural por dentro.

Basta, porém, entrar na literatura brasileira sem pedir autorização para perceber o tamanho do equívoco.

Machado de Assis não escreveu para explicar o Brasil ao mundo. Usou o Brasil para expor o humano. Sua ironia é bisturi: corta sem alarde, desmonta vaidades, revela os pactos íntimos entre poder, autoengano e moralidade flexível. Machado antecipou o narrador moderno, aquele que seduz enquanto trai. Sua obra prova que universalidade não nasce da imitação, mas da precisão.

Clarice Lispector........

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