O Brasil que insiste em ir de caminhão ao século XXI
O Brasil vive de horizontes adiados. Sempre que uma crise obriga o país a olhar para os próprios pés, descobre-se parado no acostamento, esperando que as mesmas rodovias de sempre resolvam problemas que elas próprias criaram. É um país que insiste em correr para frente olhando apenas o retrovisor.
Na última semana de dezembro de 2025, porém, um fato concreto interrompeu esse velho automatismo. A Ferrovia Transnordestina realizou sua primeira viagem em operação comissionada, percorrendo 585 quilômetros entre o Piauí e o Ceará, com o transporte de uma carga de milho. Não houve cerimônia grandiloquente nem discursos inflados. Houve um trem em movimento — algo raro demais na história recente da infraestrutura brasileira para ser tratado como detalhe.
A Transnordestina Logística S.A., concessionária responsável pela obra e pela futura operação comercial, informou que a ferrovia foi concebida para transporte de cargas de alto desempenho. Quando plenamente autorizada, deverá escoar grãos, milho, soja, algodão, minérios, gesso, gipsita e contêineres, conectando áreas produtivas do interior nordestino aos portos e aos grandes corredores logísticos do país. Depois de anos simbolizando atraso, a Transnordestina começa, ainda que tardiamente, a simbolizar viabilidade.
O impacto potencial é expressivo. Estudos técnicos associados ao projeto indicam capacidade inicial para dezenas de milhões de toneladas por ano, com redução estimada de até 30% no custo logístico de produtos agrícolas e minerais do Nordeste. Estados historicamente penalizados pela distância dos portos passam a ganhar competitividade real. O efeito se propaga: menor custo de frete, maior margem ao produtor, estímulo à industrialização regional e geração de empregos diretos e indiretos ao longo da cadeia logística.
O significado desse teste vai além da carga transportada. Ele sinaliza que ferrovias não são abstrações nem promessas eleitorais: são infraestrutura concreta. Cada trem que........© Revista Fórum
