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Há coisas piores do que a morte

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04.01.2026

Todo começo de ano me concede quatro ou cinco dias de licença interior — um intervalo curto, mas necessário, para arejar a alma depois de doze meses escrevendo diariamente sobre política econômica, tarifas, guerras distantes e próximas, operações nos morros, emendas parlamentares, desmatamento, inteligência artificial, golpes financeiros, bancos suspeitos e a engrenagem ruidosa do poder. São dias raros em que o barulho do mundo diminui e a escrita deixa de ser trincheira para voltar a ser escuta.

É o meu freio de arrumação: diminuir o passo, reorganizar ideias, respirar outros ares antes que o calendário volte a apertar o cerco. Nesse silêncio provisório, a literatura reaparece como abrigo e reencontro. Hoje, deixo o noticiário de lado para falar de um escritor ainda pouco conhecido fora de seu território, mas dono de uma escrita que reúne a secura precisa de Graciliano Ramos, a pulsação humana de José Lins do Rego e o olhar amazônico de Milton Hatoum. Falo de Osair Vasconcelos.

Há livros que não pedem licença ao leitor. Entram, ocupam espaço, desarrumam o interior e deixam marcas difíceis de apagar. As sombras do céu apagaram nossos rastros pertence a essa linhagem rara. Não é um romance empenhado em agradar nem em confirmar expectativas; exige atenção ética, fôlego narrativo e disposição para atravessar zonas de desconforto. Organizado em cinco capítulos derramados com precisão ao longo de 137 páginas, o livro........

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