A disputa pela sombra expõe a nova crise das cidades
A disputa por áreas sombreadas evidencia uma nova crise nas cidades.
Dentro de poucos anos, a sombra poderá adquirir valor público comparável ao da água. Nas cidades submetidas a verões mais longos, uma árvore funcionará como abrigo, equipamento sanitário e mecanismo de justiça urbana. Seu diâmetro de copa dirá mais sobre uma administração do que muitas obras destinadas às fotografias oficiais.
Em 2 de setembro de 2025, o Banco Mundial divulgou o Handbook on Urban Heat Management in the Global South, elaborado com contribuições da UN-Habitat e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. O documento projeta que, até 2050, o número de pobres urbanos expostos ao calor perigoso poderá crescer 700%, sobretudo na África e na Ásia.
A escala do benefício aparece também na arborização. Em 10 de dezembro de 2024, um estudo publicado na Communications Earth & Environment reuniu 182 pesquisas realizadas em 110 cidades ou regiões urbanas, distribuídas por 17 tipos de clima. Em determinadas condições, as árvores reduziram em até 12 °C a temperatura percebida ao nível do pedestre. Arborizar interfere em saúde, transporte, habitação, produtividade e consumo de energia.
Tratar árvores como ornamento custa caro. Significa ampliar internações, perder jornadas de trabalho, elevar a demanda por refrigeração e aceitar mortes prematuras evitáveis. Em muitas cidades, a árvore já funciona como infraestrutura de sobrevivência.
A sombra virou infraestrutura
Basta observar o que acontece nas grandes cidades para perceber que a temperatura deixou de ser apenas informação meteorológica. Ela reorganiza horários, altera trajetos, afasta idosos das ruas, castiga trabalhadores que dependem do espaço público e estabelece diferenças concretas entre bairros separados por poucos quilômetros.
Paris iniciou em 2018 o programa OASIS, que transforma pátios escolares asfaltados em áreas verdes, permeáveis e capazes de funcionar como ilhas de frescor. Em 20 de maio de 2026, a rede Eurocities registrou que 208 pátios já haviam sido redesenhados, dentro da meta de alcançar as 770 escolas parisienses até 2050.
Brasília, concebida com extensas áreas verdes, enfrenta o mesmo desafio sob características próprias. Nos dois anos, 2023 e 2024, em que fui diretor da autarquia responsável por parques e jardins da capital, acompanhei de perto algo que números e mapas nem sempre revelam: uma árvore bem localizada muda a........
