Neoindustrialização sob cerco: o que o governo Lula já fez — e por que ainda é insuficiente
Durante anos, a palavra “indústria” desapareceu do vocabulário oficial brasileiro. Foi substituída por expressões neutras como “ambiente de negócios”, “ganhos de eficiência” e “integração às cadeias globais”. O resultado dessa escolha política travestida de técnica foi inequívoco: desindustrialização acelerada, reprimarização produtiva, perda de densidade tecnológica e enfraquecimento da capacidade estatal de planejamento.
O terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva rompeu com esse ciclo. A indústria voltou ao centro do discurso e, mais importante, ao centro da ação pública. Trata-se de uma inflexão histórica real, que deve ser reconhecida. Mas essa inflexão convive com um paradoxo central que não pode mais ser contornado: o Brasil voltou a falar em neoindustrialização mantendo intacto o regime de juros que inviabiliza o investimento produtivo em escala.
O retorno da política industrial como decisão política
A reconstrução da política industrial brasileira não ocorreu por inércia. Foi fruto de uma decisão política clara: abandonar a tese de que a estrutura produtiva se transforma espontaneamente pela ação do mercado. A formulação da Nova Indústria Brasil (NIB) simboliza esse reposicionamento ao recolocar o planejamento estatal, as missões estratégicas e o financiamento de longo prazo no centro do projeto de desenvolvimento.
Ao contrário do período anterior, a política industrial passa a reconhecer setores estratégicos, gargalos tecnológicos e a necessidade de coordenação entre indústria, ciência, tecnologia, infraestrutura e compras públicas. O Estado volta a assumir que desenvolvimento não é subproduto do equilíbrio macroeconômico, mas construção deliberada.
Nesse processo, o BNDES, sob Aloizio Mercadante reassume papel central. O banco amplia o crédito de longo prazo, retoma apoio à indústria de transformação, fortalece linhas de inovação e volta a operar de forma articulada com objetivos produtivos explícitos. Trata-se de uma ruptura importante com o ciclo em que o financiamento ao investimento foi tratado como distorção a ser........
