Sociologia do vinho, imigração e país: quem cuida de quem cuida da vinha?
Há um momento do ano em que a paisagem engana. As vinhas parecem mortas. Os troncos retorcidos, os ramos secos, a terra em silêncio. Mas é precisamente agora, quando se trata da poda e a vinha está dormente, que se prepara o futuro. Corta-se, orienta-se, decide-se o que vai crescer. O essencial acontece na invisibilidade.
Talvez devêssemos aprender mais com a vinha.
O vinho, bebido com moderação, integrado na refeição e na conversa, é uma das linguagens mais antigas da cultura mediterrânica. Não é apenas álcool, mas tempo partilhado, sociabilidade, memória. Faz parte daquela gramática quotidiana que organiza a vida em torno da mesa e do encontro.
Mas o vinho é também um objeto curioso, todos sabemos que ninguém bebe apenas “um líquido”. Bebemos histórias, regiões, práticas, rituais, expectativas. Como lembra a sociologia do vinho, não existe “o bom vinho” isolado; existe um conjunto de gestos, de acordos e de dispositivos que nos ensinam a prestar atenção. Um momento em que paramos ligeiramente, cheiramos, provamos, comparamos, é aí que o vinho ganha presença e importância.
É por isso que o sector do vinho é, ao mesmo tempo, económico e profundamente social. Uma garrafa de vinho é todo um contexto e não só uma embalagem. É história, conteúdo, design, tradição, luta de classes... É, também, uma alegoria.
E aqui entram os imigrantes, não como nota de rodapé, mas como atores centrais da história contemporânea do vinho em Portugal, da história futura da vinha.
Hoje, nas vinhas do Douro ao Alentejo, a presença de trabalhadores migrantes tornou-se estrutural ao........
