menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Memórias de um futuro possível

16 10
18.02.2026

Nous nous confion rarament à ceux qui sont meilleurs que nous. La Chute Albert Camus

É difícil, para não dizer impossível, sermos otimistas nos tempos que vivemos. As bombas caem em tantas partes que não se pode ter qualquer certeza relativamente à segurança do nosso teto. E acima de tudo, a gratuitidade e a facilidade com que se mobilizam recursos para romper o acordo tácito de muitas décadas relativamente ao imperativo de se manter a paz e respeitar os direitos humanos é inquietante. Esta situação está em óbvia contradição com a estabilidade necessária para respondermos aos verdadeiros desafios do nosso tempo: o combate às causas e a mitigação e adaptação às consequências das alterações climáticas, que já assolam milhões de seres humanos e tem causado um extinção em massa de espécies; a necessidade de desencadear medidas para aplainar as desigualdades sociais de modo a estabelecer um espírito coletivo de justiça e solidariedade; o imperativo ético estender os benefícios do conhecimento científico para melhorar a vida e a saúde de todos os povos e garantir um desenvolvimento socioeconómico justo e harmonioso a nível internacional.

As causas deste Zeitgeist tão negativo são múltiplas, mas é inegável que tem raízes no fosso entre ricos e pobres que se ampliou com uma globalização predominantemente conduzida por interesses neoliberais e na exploração política desta clivagem por forças políticas de cariz populista de inspiração nazifascista-estalinista.

No que se refere à Europa, há semelhanças com o que se passou nos anos 1930. A crise económica e social profunda resultante da mortífera Primeira Guerra Mundial e a perceção política de uma ubíqua ameaça bolchevista desencadeou forças de reação radicais em Itália e Alemanha que se materializaram no nazifascismo. Meloni, Le Pen, Orbán, Ventura e outras insignificâncias deste cariz seguem os passos e a cartilha dos líderes nazifascistas e populistas de então: imprevisibilidade, tacticismo, contínuo aproveitamento das situações sem qualquer preocupação de consistência programática e um profundo e explícito desprezo pelo parlamentarismo.

Claramente, Putin é o que, no nosso tempo, mais se aproxima de Estaline. Porém, o Mussolini (Hitler foi seu discípulo) do nosso tempo surge surpreendentemente no contexto da política norte-americana no seio do qual todos os mecanismos de regulação (checks and balances) ancorados numa supostamente sólida tradição constitucional e liberal, falharam e deram origem à monstruosidade de um criminoso movido exclusivamente pela mediocridade dos seus interesses pessoais, desprovido das qualidades políticas mínimas para a condução de qualquer empreendimento coletivo. E penso que as condições para o aparecimento de uma tão infeliz personagem têm também raízes no gigantesco fosso económico entre ricos e pobres criado pela globalização neoliberal e pela profunda clivagem de qualificações resultante de um sistema educativo mercantilizado e economicamente discriminatório.

A prática política de Trump segue cuidadosamente os ensinamentos de Mussolini: os projetos políticos populistas devem surgir como reação a uma ameaça estrangeira, estando os imigrantes na linha da frente desta ameaça, assim como uma pretensa revolução woke com raízes laicas e cosmopolitas. Claramente, este artifício retórico visa precisamente aproveitar o fosso intelectivo resultante da educação privada e elitista controlada pela desinformação das redes sociais e da comunicação social tradicional que se deixou arrastar pela voragem neoliberal. Outro ingrediente indispensável é implementar o medo por meio da implantação de forças de intimidação nas ruas.

E como nos ano 30, o inevitável confronto entre os grandes blocos iniciou-se com um pacto. Trump e Putin acordaram, como o pacto Molotov-Ribbentrop que estabeleceu a divisão da Polónia e a extinção da Checoslováquia e dos países bálticos, que a Ucrânia pertence à Rússia e a Europa é um troféu (ou engodo) à disposição do ditador do Kremlin. Reciprocamente, Trump tem carta branca no que se refere a Gaza e Venezuela, como vimos há dias. Serão Cuba, Colômbia e a Groenlândia as próximas conquistas do ensandecido senhor da Casa Branca? Ninguém o pode prever. A mente alucinada de um ditador é sempre errática, dado que as suas motivações são ditadas pelo oportunismo.

Mas há que recordar que a lógica confrontativa hoje é mais complexa, pois à espreita está a China com seu declarado desejo de reconquistar Taiwan e suplantar a hegemonia norte-americana, e este putativo confronto terá inevitavelmente consequências imprevisíveis para toda a humanidade.

Existe hoje, na ordem internacional, algum contraponto à putinização do mundo? Certamente, não virá este da moribunda Organização das Nações Unidas. Também não virá da insólita amálgama política dos BRICS, reforçada pela Arábia Saudita, Irão e outros países com duvidosas credenciais democráticas, dada precisamente a sua congénita subserviência à China e à Rússia. Só resta a União Europeia. Mas esta tem de se desvencilhar da retórica e da prática de normalização das imposturas de Trump e refundar a NATO, recentrando-a na sua própria defesa e na defesa do direito internacional.

No seu conjunto, o exército dos países da União Europeia tem uma considerável capacidade, apesar de carecer de um comando estruturado e ser deficiente em armas nucleares. Excluindo esta apocalíptica opção, a União Europeia pode consolidar as suas capacidades defensivas e afirmar-se, não como força bélica a temer, mas como modelo de construção de consensos multinacionais e defesa duma ordem internacional baseada no respeito pela soberania dos povos e pela democracia.

A União Europeia pode consolidar as suas capacidades defensivas e afirmar-se, não como força bélica a temer, mas como modelo de construção de consensos multinacionais. E deve fazê-lo em aberta oposição aos EUA

Partilhar no Facebook

E deve fazê-lo em aberta oposição aos EUA, pois, como é bem sabido, os EUA nunca abandonaram a sua ideologia imperialista, que com Trump foi relançada com redobrado ímpeto e rapacidade. Só a união dos povos com base numa opção política coletiva consensual pode apresentar-se como uma solução civilizacional compatível com a dignidade humana e o direito internacional.

O ódio e o desprezo que Putin e Trump têm pelo projeto europeu não nos devem amedrontar, mas, pelo contrário, devem reforçar a nossa determinação na defesa de projetos civilizacionais como o da União Europeia.

Outro vazio que a União Europeia pode e deve preencher é o do esforço de harmonização da distribuição da riqueza no mundo. Há que considerar que o PIB conjunto da Europa é 22,5 mil milhões de dólares, superior, por exemplo, ao da China, que é de 19,6 mil milhões de dólares. E a Europa pode fazê-lo dispensando uma fração do seu orçamento, que em 2026 é cerca 200 mil milhões de dólares, para apoiar projetos de revitalização económica das regiões menos desenvolvidas do mundo, evitando assim que estas sejam um contínuo foco de tensões, guerras e emigração. Sugiro que este novo Plano Marshall seja denominado Plano Fourier-Owen-Saint Simon, em alusão aos reformistas sociais utópicos do século XIX, e que seja uma fonte de inspiração para todos os que ainda têm esperança num mundo livre da ignomínia e desumanidade de líderes egocêntricos e sociopatas.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990


© PÚBLICO