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A última roupa: ética, memória e a última transição de cuidados

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22.06.2026

A minha avó ensinou-me, sem nunca o dizer, que há gestos que guardam uma vida inteira. Gestos tão pequenos que quase não fazem ruído, mas que, quando os recordamos, iluminam tudo. Lembro-me tantas vezes dela. Um desses gestos foi a escolha da roupa com que queria ser vestida quando morresse. Muito antes de a fragilidade lhe ocupar o corpo, muito antes de deixar a casa onde viveu décadas, ela preparou esse vestido. Passou-o a ferro como quem sabe que está a cuidar de algo importante. Pendurou-o, protegeu-o e guardou-o no roupeiro, onde sempre coube toda a sua roupa e a do meu avô. Não havia excessos. Era um vestido simples, como ela. Bege, clássico e usado unicamente no casamento das netas. A minha avó não tinha vaidade. Era fidelidade a si própria e forma mais silenciosa de dizer: “É assim que quero ser lembrada, com o vestido de um dia especial para vós.”

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