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Restaurar a cidade pela natureza

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A notícia de que está em preparação um programa para criar “ilhas verdes” contra o calor e aumentar a presença de árvores nas cidades portuguesas deve ser lida para lá da resposta imediata às ondas de calor. O calor é o sinal mais imediato, aquele que o corpo reconhece antes de qualquer explicação técnica. Basta atravessar uma rua sem árvores num dia de verão ou esperar por um autocarro junto a uma superfície de alcatrão para perceber que a cidade pode proteger ou expor quem a habita.

Mas o tema é mais profundo. Está em causa a forma como, durante demasiado tempo, separámos a cidade da natureza, como se a primeira fosse uma construção técnica e mineral, e a segunda pertencesse a um exterior distante, rural ou protegido. Essa separação tornou-se uma das fragilidades da cidade contemporânea.

Durante décadas, a natureza entrou muitas vezes depois, quando sobrava espaço, como composição final ou compensação visual. Em muitos casos, a paisagem urbana foi tratada como acabamento, não como estrutura. O solo foi impermeabilizado, a água conduzida para fora o mais depressa possível, a vegetação reduzida a presença ornamental, os ecossistemas fragmentados e os ciclos naturais interrompidos.

A expressão “ilhas verdes” pode ser útil para comunicar uma resposta ao calor urbano, mas o verdadeiro desafio é mais amplo. Não se trata de criar episódios verdes dentro da cidade. Trata-se de restaurar funções naturais que a cidade perdeu ou enfraqueceu, ligadas ao solo, à água, à vegetação, à biodiversidade, à regulação térmica, à continuidade ecológica e à qualidade do espaço público.

A sombra é fundamental, mas não está sozinha. Numa rua arborizada, a copa das árvores depende do solo, da água, do espaço radicular, da drenagem, da manutenção e do tempo. Numa praça sombreada, a permanência torna-se possível e a cidade deixa de ser mera passagem para voltar a ser espaço comum.

É aqui que a Lei Europeia do Restauro da Natureza se torna decisiva. Pela primeira vez, o restauro da natureza deixa de ser uma preocupação lateral da política ambiental e passa a ocupar um lugar estruturante nas políticas públicas europeias. Restaurar natureza não significa regressar a uma imagem idealizada de paisagem intocada. Significa recuperar processos ecológicos essenciais, profundamente alterados pela ação humana, e reintegrá-los nos territórios onde vivemos, trabalhamos e circulamos.

Nas cidades, esta mudança é particularmente importante. Restaurar natureza significa devolver espaço ao solo, criar condições para que a água infiltre e permaneça, garantir que as árvores conseguem crescer e envelhecer, valorizar corredores ecológicos, jardins de chuva, bacias de retenção, coberturas verdes, linhas de água urbanas e vazios que podem deixar de ser espaços residuais para se tornarem lugares de regeneração.

Esta discussão toca diretamente a habitabilidade futura das cidades. Uma cidade que restaura a natureza ganha capacidade de lidar com o calor, com a água, com a perda de biodiversidade, com a degradação dos solos e com a desigualdade ambiental entre bairros. A cidade precisa de sombra, sim, mas precisa também de solo vivo, água disponível, diversidade biológica, continuidade ecológica e capacidade de adaptação.

Para os cidadãos, isto traduz-se em mudanças concretas. Ruas mais confortáveis, bairros menos vulneráveis, praças mais habitáveis, escolas com espaços exteriores mais qualificados, percursos pedonais mais agradáveis e uma relação mais próxima com a natureza no quotidiano. Traduz-se também em cidades que funcionam melhor porque deixam de expulsar ou ignorar os processos naturais de que dependem.

A arquitetura paisagista poderá ter aqui um papel importante. Não no sentido de acrescentar uma camada verde no fim dos processos urbanos, mas no sentido de pensar a cidade a partir das relações entre sistemas vivos, espaço público, infraestrutura, uso social e tempo.

O programa das “ilhas verdes” deve, por isso, ser entendido como ponto de partida e não como fim em si mesmo. A Lei Europeia do Restauro da Natureza dá enquadramento a esta mudança. O programa nacional pode dar-lhe expressão concreta. Cabe agora às cidades transformar essa oportunidade numa prática consistente.

Não basta plantar mais árvores, criar pequenos jardins ou aumentar percentagens de área verde. É preciso incorporar a natureza nos processos de planeamento, projeto, obra e manutenção. É preciso desenhar com o solo, com a água, com a vegetação e com o tempo.

A cidade do futuro não será menos urbana por integrar melhor a natureza. Será mais completa, mais justa na distribuição do conforto ambiental e mais consciente da sua dependência dos sistemas vivos. Talvez seja esse o verdadeiro sentido deste debate. Não criar manchas verdes para suavizar a dureza da cidade, mas transformar a própria ideia de cidade. Uma cidade onde a sombra conta, a água conta, o solo conta, a biodiversidade conta e a natureza não entra como adereço, mas como fundamento.

O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990


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