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A falácia da meritocracia

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17.04.2026

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Muitos anos atrás, quando trabalhava como repórter na revista Claudia, entrevistei duas professoras de balé que ensinavam crianças de comunidades carentes em Fortaleza e no Rio de Janeiro. Uma delas tinha uma escola numa região central da capital cearense e dava aulas para mais de cem meninas. Antes de começar o projeto, ela foi até a comunidade, falou sobre as aulas, ficou feliz com a empolgação das crianças e esperou as alunas no dia combinado. Pouquíssimas apareceram. Ela voltou à comunidade e descobriu que as meninas não foram porque não conseguiram o dinheiro para pagar o transporte.

A professora foi atrás de financiamento e conseguiu vales para que as alunas viessem à escola. Resolvido o problema, as aulas começaram e ela percebeu que as meninas se agarravam àquela oportunidade. Mas, aos poucos, descobriu outra questão: algumas crianças estavam sempre fracas e chegavam até mesmo a vomitar no banheiro da escola.

O problema era que muitas vezes essas alunas não tomavam café ou haviam comido apenas uma mistura de farinha e água pela manhã. O jejum não era por motivos estéticos. As famílias simplesmente não tinham dinheiro para pagar a alimentação das crianças. A solução foi montar uma cozinha e oferecer duas refeições por dia para as meninas.

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Já no Rio de Janeiro, o problema era bem diferente. Com uma vista incrível para a praia de Ipanema, o morro do Pavão-Pavãozinho parece um oásis em meio à bagunça da cidade grande. Nesse cenário incrível, a professora me contou que muitas moradoras faltavam às aulas de balé porque haviam passado a noite acordadas, embaixo da cama, tentando se esconder dos tiros trocados por facções rivais ou por policiais e traficantes.

Segundo um boletim sobre violência da ONG Redes da Maré, as crianças do bairro da Maré perdem em média 40 dias por ano de aulas. Por causa das guerras constantes na comunidade, os professores muitas vezes não conseguem chegar a tempo, as classes são interrompidas constantemente e o clima de terror é constante. Vocês conseguem imaginar a carga psicológica de viver dessa maneira?

Conto essas histórias para tentar desmantelar a falácia da meritocracia, uma bobagem que só prega quem teve uma vida confortável ou quem, por valor próprio ou uma boa dose de sorte, saiu do nada e se deu bem. Claro que temos bons exemplos, mas são a exceção.

Veja se você concorda comigo. Pense em uma criança que cresce em uma casa segura, com pais que possuem um emprego estável, têm um ótimo salário e plano de saúde. Ela estuda em uma escola privada de excelência e mora em um bairro tranquilo. Quando chega em casa, tem almoço na mesa e professor particular para ajudar com as tarefas. Faz curso de inglês, de natação e de piano.

Agora, imagine uma outra criança que vive em uma comunidade onde os tiros rasgam o céu a noite toda, período em que ela precisa se esconder debaixo da cama no barraco mínimo em que mora com a mãe e vários irmãos. O pai sumiu ou foi assassinado. A chefe da família trabalha o dia todo para colocar comida na mesa e, por isso, não tem tempo de estar com os filhos.

Essa criança estuda em uma escola pública que passa boa parte do ano sem aulas porque o bairro é violento e porque os professores, mal pagos e exaustos, não encontram condições de trabalhar direito. Ela também não tem alimentação ou atendimento médico de qualidade, nem faz aulas de inglês e música.

Talvez os pais da criança rica tenham trabalhado muito e conquistado o que possuem, e os da criança pobre podem até ser menos esforçados — inclusive, porque não tiveram tantas oportunidades, ou porque não encontraram estímulo para tocar a vida adiante, tendo que enfrentar empregos com horários ultra-exigentes e funções pouco instigantes. Mas, independentemente do mérito dos pais, você acha que essas duas crianças têm oportunidades iguais na vida? É possível e justo tratá-las da mesma maneira?Vira e mexe circula um desenho nas redes que explica muito bem essa questão. O primeiro quadrinho, sob o qual está escrito “Igualdade”, mostra três meninos de alturas diferentes tentando ver um jogo de futebol que acontece atrás de um muro. Os três estão em cima de caixotes iguais. O mais alto consegue, o do meio precisa se espichar e o menor não vê nada.

No quadrinho seguinte, eles estão sobre caixotes de tamanhos diferentes, maior para o mais baixinho e médio para o médio, e assim todos conseguem ver a partida. Sob esse desenho está escrito “Justiça”. (Para uma versão mais completa do desenho, com explicação, veja aqui.)

Quando pessoas com histórias de vida diversas recebem exatamente o mesmo tratamento, podemos até achar que a justiça está sendo feita. No entanto, as condições precisam ser estabelecidas de maneira que cada uma tenha oportunidades de acordo com suas necessidades. E melhor ainda seria que todas tivessem as mesmas condições desde o nascimento.

Mesmo assim, sempre teremos diferenças de resultados simplesmente porque as pessoas não são iguais. De qualquer maneira, é bom ter todas as informações antes de falar mal de ajustes, como as cotas, por exemplo, que tentam compensar injustiças históricas.


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