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Habitação precisa de execução

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09.06.2026

Quando penso em habitação, lembro-me de imediato de uma situação simples, quase banal, mas que diz muito sobre o país em que vivemos neste momento: uma família tenta mudar-se dentro da mesma cidade e percebe que «escolher» já não é escolher — é competir. Um anúncio surge de manhã, há visitas marcadas para a tarde e, ao final do dia, o imóvel já desapareceu ou o preço já foi «ajustado». Noutros casos, alguém aceita um arrendamento com uma cláusula frágil, não porque seja o melhor, mas porque é o único que cabe na urgência.

Estes exemplos não são exceções. São sinais de que a habitação passou a funcionar como um funil: muita procura a entrar, pouca oferta a sair e um conjunto de regras e atrasos pelo meio que agravam o estrangulamento. Quando isto acontece, as consequências não ficam no mercado imobiliário, entram na vida real: atrasam projetos familiares, empurram jovens e estudantes para a precariedade, obrigam trabalhadores essenciais a viver longe do emprego, acentuam desigualdades e transformam a cidade numa espécie de «clube» onde nem todos podem permanecer.

A conversa pública tende a cair em duas armadilhas: moralizar (quem «tem» versus quem «não tem») ou simplificar («falta de casas», ponto final). Eu acredito noutra leitura: a crise da habitação é, em grande medida, uma crise de capacidade de execução. E essa incapacidade tem causas identificáveis: complexidade urbanística, burocracia, falta de transportes e fraco planeamento de bairros e serviços. Se aceitarmos este diagnóstico, ganhamos também algo raro: caminhos de ação realistas.

A legislação urbanística existe para proteger o interesse público — segurança, qualidade do espaço urbano, ambiente, património, coesão territorial. O problema surge quando a lei deixa de ser um quadro claro e passa a ser um labirinto. A complexidade não é apenas «muita coisa para ler»; é a combinação de normas que se cruzam, interpretações que variam, pareceres que se acumulam e decisões que tardam a ser tomadas.

O resultado é conhecido por quem tenta promover habitação, seja pública, cooperativa ou privada: o risco não está só na obra; está antes da obra. Não é apenas o custo dos materiais ou da mão de obra — é o custo da incerteza: não saber quando se decide, o que falta, que interpretação vai prevalecer, que entidade tem a «última palavra» e em que momento.

E esta incerteza tem um efeito social direto: reduz a oferta. Porque a oferta não é uma abstração — é um conjunto de decisões (comprar terreno,........

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