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Manifesto pela Arquitectura como Interesse Público

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03.01.2026

Querem compreender a verdadeira destruição de valor em Portugal? Abram um atelier de arquitectura. Querem perceber as causas profundas dos baixos salários, da precariedade estrutural e da fuga contínua de talento? Abram um atelier de arquitectura.

A arquitectura, enquanto prática profissional, cultural e técnica, tornou-se um espelho ampliado das disfunções estruturais do país. Nela convergem, de forma particularmente violenta, os vícios de um sistema que penaliza quem cria, quem planeia, quem assume risco e quem trabalha com responsabilidade, visão e rigor.

Abrir um atelier de arquitectura em Portugal é aceitar um sócio invisível, omnipresente e profundamente tóxico: um sistema que não investe, não protege, não confia, mas que controla, consome e extrai. Um sócio que exige sem dar, que impõe sem assumir risco, que cobra sem criar valor. Um sócio que nunca assina projectos, mas provoca atrasos, bloqueios, falências silenciosas e desistências definitivas.

Querem perceber por que razão o país falha, há décadas, na construção de um parque habitacional digno, acessível e suficiente? Abram um atelier de arquitectura.

A crise da habitação não é apenas económica, financeira ou ideológica, é também administrativa, técnica e política. Resulta de processos opacos, de decisões arbitrárias, de regulamentos contraditórios e de uma cultura institucional que confunde zelo com imobilismo e legalidade com paralisia.

A burocracia portuguesa não é neutra. É um instrumento activo de desgaste, exclusão e destruição de valor. Não serve para melhorar projectos, proteger cidadãos ou garantir qualidade. Serve para atrasar, desresponsabilizar e transferir risco. Cada formulário redundante, cada parecer inconsequente, cada exigência contraditória não aumenta a segurança – aumenta apenas o custo, o tempo e a incerteza. Tempo que nunca é pago. Risco que nunca é partilhado.

No sistema público português, a avaliação técnica tornou-se frequentemente uma ficção. Projectos são aprovados ou chumbados não com base na sua qualidade, coerência ou impacto, mas segundo critérios erráticos, subjectivos e muitas vezes inconfessáveis. O mesmo........

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