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"Contactável, logo existente!": crónicas da presença ausente

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11.07.2026

Isto poderia ser o título de um ensaio sobre a arte contemporânea de estar em todo o lado e em lugar nenhum, mas só que não…

Há de facto uma sensação que se tornou, paradoxalmente, das mais democráticas do nosso tempo: a de estarmos sempre disponíveis e raramente, verdadeiramente, presentes. Não é exclusiva de quem cuida, mas em quem cuida atinge uma intensidade quase litúrgica, uma espécie de vigília permanente em que o corpo está no posto, o telefone vibra no bolso e a mente, essa entidade ingrata, já partiu há muito para a tarefa seguinte. Quem trabalha em saúde conhece bem este estado de semi-existência: presente o suficiente para assinar a folha de presenças, ausente o suficiente para não recordar, três minutos depois, o nome de quem acabou de atender.

A disponibilidade como nova forma de servidão!

Zygmunt Bauman cunhou a expressão “modernidade líquida” para descrever um mundo em que tudo o que era sólido – instituições, vínculos, identidades- se dissolveu em fluxo permanente. Os profissionais de saúde tornaram-se, neste enquadramento, talvez o exemplo mais acabado dessa liquidez: disponíveis vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, ainda que formalmente “de folga”, porque a folga, hoje, é apenas um eufemismo administrativo para “ainda contactável, mas com menor probabilidade de resposta imediata”.

Byung-Chul Han, com a fineza cirúrgica que lhe é própria, descreveu o sujeito contemporâneo não como reprimido por uma disciplina externa, mas como explorador de si mesmo, voluntariamente entregue ao excesso de positividade e de produtividade até à exaustão. Não precisamos de um capataz a vigiar-nos; bastam-nos a notificação do telemóvel, o sentido de dever e aquela vozinha interior -treinada durante anos de formação clínica – que sussurra que descansar é, de alguma forma, uma forma sofisticada de negligência. O resultado, segundo o autor, é uma sociedade do cansaço onde a fadiga deixou de ser sinal de limite e passou a ser estatuto, quase um troféu moral: “estou esgotado, logo sou indispensável”.

A multitarefa: ou a ilusão de estarmos em todo o lugar!

Há ainda a questão, deliciosamente irónica, da multitarefa. Convencemo-nos de que conseguimos, em simultâneo, escrever uma nota clínica, responder a uma mensagem urgente, supervisionar um estudante e manter, com a outra metade do cérebro, uma conversa empática com o doente à nossa frente. A evidência cognitiva é, infelizmente, menos lisonjeira do que a nossa autoimagem. Diversos investigadores em neurociência cognitiva – entre os quais se destaca o........

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