Lisboa, não sejas francesa
Desde há décadas que Lisboa vive num frenesim suicida. Sabe quem a ama—e a verdade é a forma suprema de amor—que a larga maioria da Área Metropolitana é infrequentável. Há uma Lisboa-Lisboa que acaba no Marquês: é a Lisboa de que o lisboeta se orgulha, que o fado canta e o turista persegue. E há, dali em diante, uma anti-Lisboa de horrores cada vez mais ostensivos; feia, indigna, é insulto a si mesma, ao seu Tejo e à sua luz. O lisboeta pensante compreende que assim é: vê as distopias mecânicas e opressivas de Chelas, dos Olivais, até de Benfica—emaranhados soviéticos de betão cinzento repetido dez mil vezes nas mesmas formas e nos mesmos materiais baratos—e sabe que não é natural que, na latitude de Esmirna, de Palermo e de Nápoles, bem a sul de Istambul, se viva em depressivo negrume escandinavo.
Claro que o problema está longe de ser suburbano. É........
