Quo vadis, humanitas?
(Título inspirado numa recente publicação do Vaticano.)
Caminhamos sobre a Terra há mais de dois milhões de anos. Ao longo de uma jornada feita de ruturas, adaptações e saltos evolutivos inesperados, o género Homo moldou progressivamente o mundo à sua imagem. O cérebro expandiu-se, cruzámos continentes, dominámos o fogo, inventámos linguagens e operámos a primeira grande metamorfose civilizacional no Crescente Fértil: deixámos de ser caçadores-recolectores para nos tornarmos agricultores e pastores.
Foi nessa transição neolítica que surgiram as primeiras cidades, os primeiros sistemas organizados de pensamento e as grandes interrogações religiosas. Lentamente, o Homo sapiens biológico fundiu-se com o sapiens sociocultural. A técnica, a memória e o símbolo passaram a definir-nos tanto quanto a genética.
Hoje, porém, essa mesma capacidade cognitiva confronta-nos com um paradoxo sem precedentes. Entrámos na era do Antropoceno — um tempo marcado pelo ruído incessante do consumo, pela aceleração tecnológica e pela repetição quase ritual das guerras, das desigualdades e da indiferença. É neste cenário de desgaste civilizacional que emergimos diante da mais profunda mutação da nossa história: a revolução digital e a inteligência artificial.
As novas tecnologias deixaram de ser simples instrumentos de trabalho. Tornaram-se extensões da própria identidade humana. A ciência reacendeu o espanto perante a grandeza do engenho humano, mas revelou também, com igual intensidade, a sua fragilidade. A pandemia da Covid-19 expôs a vulnerabilidade do corpo; os conflitos contemporâneos recordaram a persistência do mal; a lógica da produtividade permanente transformou a existência numa aceleração sem repouso.
Permanece, assim, a ambivalência fundamental da condição humana: entre grandeza e fragilidade, criação e destruição, lucidez e cegueira.
À medida que delegamos a memória, a decisão e até parcelas da sensibilidade a algoritmos e redes artificiais, regressa com renovada urgência a antiga pergunta: Quo vadis, Humanitas? Para onde caminha a humanidade quando a técnica ameaça sobrepor-se ao espírito?
A experiência religiosa — e particularmente a tradição cristã — não elimina esta tensão; procura habitá-la. O Salmo 8 exprime-o numa das mais belas interrogações da tradição bíblica: “Que é o homem para dele Te lembrares, o filho do homem para com ele Te preocupares?” (Sl 8,5).
A modernidade científica tentou responder a esta pergunta através da biologia, da genética e das neurociências. A expressão “gene egoísta”,........
