We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close
Aa Aa Aa
- A +

A janela de Victor Hugo /premium

2 4 7
18.04.2019

Depois do extraordinário sucesso do Notre-Dame de Paris, que tornou Victor Hugo o escritor mais célebre da Europa, milhares de turistas acorriam à Île de la Cité para ver a catedral. A acreditar no seu biógrafo Graham Robb, a catedral em si não entusiasmava a maioria, mas um guia costumava apontar para uma janela junto à torre mais próxima do Sena, dizendo a quem o seguia (uma vez, consta, o próprio Victor Hugo) que tinha sido ali que Victor Hugo havia escrito Notre-Dame de Paris.

Não sei em que estado ficou, depois do fogo desta segunda-feira, o compartimento em que imaginariamente Hugo teria escrito o romance, mas de uma coisa tenho a certeza: a catedral interessa a muito mais gente agora do que no tempo de Hugo. Por muitas razões, sem dúvida, fora as religiosas. De todas essas razões, só me ocupa uma: a catedral transformou-se em algo perfeitamente identificável para toda a gente. Dito de outra maneira: num indivíduo que todos conhecemos. E o fogo confrontou-nos com a possibilidade de assistir em directo à sua morte. Por isso, mais do que tudo, o horror e a incredulidade com que muitos viveram o acontecimento. Havia, é claro, toda a percepção dos séculos e da história e a conscência do desfile dos tempos que ela testemunhava. Mas essa percepção tinha-se a partir de algo como um conhecimento directo da catedral, mesmo por parte de quem nunca a tivesse visto em carne e osso. Não era, para muita gente, uma obra de arte ou um símbolo religioso, ou só era isso acessoriamente: antes de tudo, era um indivíduo.

Todas as obras de arte são indivíduos, num sentido profundo. E as cidades nas quais, em museus ou nas ruas, elas se encontram são........

© Observador