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O ‘Tristês’, o ‘Sacanês’ e os milagres de todos os dias

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02.01.2026

Mais de sessenta anos depois de termos conhecido Astérix o Gaulês, finalmente Astérix e Obélix chegaram em 2025 à Lusitânia. É verdade que em ‘Astérix, o Legionário’ há uma referência às ‘lavadeiras da Lusitânia’ e na construção desse grande condomínio, ‘O Domínio dos Deuses’, depois de os escravos Iberos e dos Belgas terem sido dispensados do trabalho por cantarem, um lusitano aparece dizendo que cantar não sabe, mas pode recitar qualquer coisita: isto para também poder ser desobrigado de trabalhar. Portanto, éramos tão só operários da construção e lavadeiras e só em 2025 nas ‘Aventuras de Astérix’ é que atingimos alguma complexidade moral.

Bom, agora finalmente na Lusitânia, entre muitos ‘Oh pás’, as voltas do destino e o fado, a contínua sombra da opressão e a alegria triste dos portugueses, toda a estória se resume em solicitarmos as boas graças de poderes externos para nos livrarem de outros maus poderes externos e dos seus acólitos portugueses. Os personagens lusos principais são dois, o ‘Tristês’ e o ‘Sacanês’ e representam bem regimes morais vigentes. ‘Tristês’ é um redentor voluntarista que vai solicitar a Astérix e Obélix que nos livre de uma má justiça que prende inocentes (o malmevês) e deixa em liberdade os trafulhas como ‘Sacanês’, um dominador ressentido vendido ao dinheiro estrangeiro. No final, claro, tudo acaba bem com os maus e bons no seu devido lugar e com a tradicional grande festa, como não podia deixar de ser, que nos faz ter fé e acreditar em milagres… ou, pelo menos, nos milagres de todos os dias.

Atribui-se a Einstein a frase “Há apenas duas maneiras de viver a vida. Uma é como se nada fosse um milagre. A outra é como se tudo fosse um milagre.”. Esta frase em Portugal é complexa pois somos cépticos e heróicos ao mesmo tempo; somos desconfiados, mas emocionais e solidários; não somos muitas vezes católicos, mas não deixamos de ser religiosos. Numa imagem, os que não entram na igreja não deixam de olhar para o céu. Aliás, talvez não por acaso, somos dos maiores designers dos céus em todo o mundo com os nossos espectáculos pirotécnicos! Portanto, ao mesmo tempo que somos capazes de dizer que não acreditamos em milagres, muitos de nós somos intrinsecamente profundamente voluntaristas, até em demasia, e estamos disponíveis as mais das vezes para uma união entre pessoas para um fim comum, mesmo que pouco realista.

De uma outra forma, é bem provável que o Português tenha uma clara noção do que é o Bem Público, quer os que se apropriam dele para proveito próprio, quer os que acreditam e procuram contribuir, de facto, para a possibilidade de boa governação do que é comum. Ou seja, até aqueles que acederam a recursos públicos para proveito próprio,........

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