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Mais mulheres em tecnologia (ainda) não significa mais igual

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Durante muito tempo, trabalhar em tecnologia era sinónimo de ser programadora. Hoje, já não o  é. Trabalhar em tecnologia passou a significar fazer parte de um ecossistema muito mais amplo,  onde convivem engenharia, produto, design, dados, estratégia e muitas outras áreas. Ainda  assim, quando falamos de representatividade, continuamos a olhar para a tecnologia como um  bloco único.

É comum ouvirmos que já há mais mulheres em tecnologia do que havia há uma década.  Podemos até dizer que é verdade. Mas, quando aprofundamos o tema, percebemos que a  presença continua longe de ser distribuída de forma equitativa. Funções operacionais tendem a  concentrar maior diversidade. À medida que o peso da decisão aumenta, a diversidade diminui.

Áreas como produto, design ou experiência apresentam uma maior presença feminina. Já a  programação, a liderança ou papéis com maior impacto estrutural e estratégico continuam a ser  ocupados, maioritariamente, por homens. Mesmo não sendo consciente, este fator reflete uma  relação, que tende a persistir, entre o peso da decisão associado a cada função e o género a  quem esse peso é confiado.

Os dados disponíveis no Eurostat, no European Institute for Gender Equality e na Comissão para  a Cidadania e a Igualdade de Género apontam no mesmo sentido. Apesar de, nos últimos anos,  se registar um aumento da presença feminina nas áreas TIC e CTEM, a representação das  mulheres diminui à medida que aumenta o nível de responsabilidade e se aproxima da esfera da  liderança, demonstrando que não estamos perante um problema de acesso, mas sim de  progressão.

Qual a razão para as mulheres continuarem a ter maior dificuldade em chegar a cargos de liderança?

A ambição de chegar mais longe nasce de dentro, mas é moldada pelo contexto que nos  envolve. Num setor historicamente dominado por homens, muitas mulheres sentem que precisam  de demonstrar maior consistência e preparação para ocupar o mesmo espaço. Spoiler alert: não por falta de competência, mas porque os critérios de validação e confiança  são aplicados de forma desigual em muitas organizações.

Para nós, mulheres, o caminho para este tipo de cargos é, muitas vezes, silencioso, solitário e  desgastante. Chegar mais preparada, antecipar objeções ou investir mais tempo para garantir  que uma ideia não é descartada à partida, são comportamentos que, não sendo impostos, se  tornam quase obrigatórios. São comportamentos absorvidos como resultado de uma leitura e  adaptação constante ao contexto de trabalho.

E falar sobre isto não é defender atalhos. A exigência deve ser a mesma para todos. Independentemente do seu género. A diferença está no ponto de partida. Quando a  oportunidade não é distribuída de forma equitativa, a dúvida instala-se mais cedo em quem já

aprendeu que só pode avançar quando se sente “200% preparada”. Não estamos a falar de  apenas um problema de representatividade. É um problema estrutural. Setores onde o risco é  sistematicamente concentrado em perfis semelhantes tornam-se viciados e menos preparados  para lidar com a transformação. Tanto se fala da importância da diversidade, mas quando existe apenas nas camadas operacionais, torna-se simbólica. E diversidade simbólica não melhora decisões.

Romper o padrão pode passar por imposição de ações, mas, para mim, a maior mudança tem de ser no quadro mental da organização, permitindo que mulheres, que assim o desejem, assumam  liderança sem necessitar de esforços suplementares em relação a outros géneros. Se continuarmos a protelar o desaparecimento da diversidade quando o peso da decisão aumenta, pergunto: que tipo de sistema estamos a escolher construir? Um sistema que tolera a presença feminina na  operação, mas resiste à sua inclusão quando se entra na esfera da liderança? Ou um sistema  verdadeiramente preparado para gerar impacto, que assume a importância da diversidade, do  impacto da transformação e decide melhor?

Enquanto continuarmos focados a responder apenas ao número de mulheres na tecnologia, continuaremos a confundir presença com igualdade, e a diversidade continuará a desaparecer  exatamente no momento em que a liderança começa.

O Observadorassocia-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.

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