África não é Las Vegas: o “novo” jihadismo
Vinte e cinco anos depois do 11 de Setembro, a leitura mais confortável que o Ocidente pode fazer da guerra ao terror é a de que ela, com todos os seus custos e todos os seus erros, acabou por ser ganha. A al-Qaeda continua a ser um nome que toda a gente reconhece, mas é um nome associado sobretudo ao passado, a uma época em que o grupo era a principal ameaça para a Europa e para os EUA. E, de facto, pelo menos à primeira vista, esta leitura parece acertada. Após mais de 20 anos de operações no Médio Oriente, onde os EUA gastaram mais de 8 milhões de milhões de dólares o Iraque e a Síria estão hoje num estado de estabilidade relativa que possibilitou, inclusive, a retirada das forças americanas da Síria, em abril deste ano, e do Iraque até 30 de setembro. Mesmo no caso mais difícil do Afeganistão, onde, após 20 anos de presença americana, os talibã voltaram ao poder em 2021, os medos de que Kabul se tornasse o centro de operações para o terrorismo global, como no passado, não se materializaram.
Mas, se os números mostram uma diminuição da atividade de grupos como a al-Qaeda ou o Estado Islâmico no Ocidente, é também verdade que a ameaça que este tipo de grupos representa não desapareceu e continua a ameaçar milhões de pessoas por todo o mundo, nomeadamente em África. O Sahel, que em 2007 representava menos de 1% das mortes por terrorismo no mundo, representa hoje mais de metade do total global, e cinco países, o Burkina Faso, a Nigéria, o Níger, a República Democrática do Congo e a Somália, concentram a vasta maioria dessas mortes. Desde o Sahel até ao Corno de África, a força de grupos terroristas como o Estado Islâmico, o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), o al-Shabaab, os Lakurawa, o Boko Haram ou o ISWAP tem crescido de forma exponencial nos últimos anos. A perceção de que o combate ao terrorismo é uma coisa do passado e circunscrito ao Médio Oriente não corresponde à realidade e tem apenas ajudado estes grupos a crescer. O que aconteceu nestes vinte e cinco anos foi a migração de um fenómeno, não o seu desaparecimento, migração essa que se deu para um continente onde o Ocidente não tem apetite político e, sobretudo, não tem atenção.
Perceber esta transformação e relocalização do terrorismo internacional exige olhar, brevemente, para trás. Imediatamente após o 11 de Setembro, Bin Laden estabeleceu-se como a cara do terrorismo internacional. Mas o seu grupo, a al-Qaeda, não nasceu em 2001. Foi criada por Bin Laden ainda nos anos 80, em grande medida integrada nos mujahideen no Afeganistão contra a ocupação soviética, e esteve bastante ativa durante toda a década de 90, com ataques terroristas em Nairóbi, em Dar es Salaam e até, pelo menos indiretamente, em solo americano, uma vez que Ramzi Yousef, o homem por trás do ataque ao World Trade Center em 1993, tinha ligações ao grupo.
Neste sentido, a al-Qaeda já era conhecida tanto pelos americanos como pelo mundo islâmico, mas foi apenas a partir de 2001 que passaram a ser vistos em Washington como uma ameaça existencial, tornando-se o grupo, quase por reflexo, o líder incontestado do movimento jihadista global.
Mas este aparente sucesso desintegrou-se rapidamente. Se Bin Laden imaginou que os ataques do 11 de Setembro catalisariam uma onda de protestos anti-intervencionistas como os que se viram aquando da guerra do Vietname, forçando os EUA a retirarem-se da região, o seu plano falhou de forma espetacular. Os americanos reforçaram a sua presença, agora acompanhados pelos seus aliados da NATO após a invocação do........
