Morreu o meu Maxi, um cão como nós (ou como eu)
O cão imita-nos a todos, tudo o que ele faz é para que se repare nele e se lhe dê mais carinho. Não é por ser cão que ele não tem sentimentos. Cão como nós, pensei. Mas preferi calar-me. Manuel Alegre, Cão como nós
Sabemos que vai acontecer, os cães têm uma vida relativamente curta, são cachorros apenas uns meses, velhotes alguns anos, e depois deixam-nos, com ou sem aviso, as mais das vezes sem um queixume – ou sem um queixume para além daquele que adivinhamos no seu olhar.
Desta vez chegou o adeus do Maxi. O meu Maxi. A minha sombra branca, como costumávamos dizer. O mais pequeno mas também o mais velho da matilha, mas que não esperava que fosse o primeiro a despedir-se de nós, com 12 anos e duas semanas.
Mas é assim e sabemos que é assim e por isso, agora que o primeiro luto está feito depois de lhe pegarmos ao colo uma última vez e de o depositarmos na terra, embrulhado na manta em que dormia e não longe de onde ele gostava de se colocar à minha espera sempre que ouvia o portão a abrir-se e o carro a entrar, ficamos com as suas memórias. Com a recordação da sua companhia. Com a esperança de que também ele era um cão como nós – na expressão feliz de Manuel Alegre –, eu egoisticamente a acreditar que era um cão como eu.
Quem me escuta na rádio Observador sabe que, por vezes, o ladrar dos meus cães perturba a emissão (sobretudo às quintas-feiras, dia de embirrações). Esses latidos não vão desaparecer, o Maxi quase nunca era dos que ladravam, e esses por cá continuam, espero que por muito tempo mesmo sabendo que há outros que já estão velhotes e cheios de maleitas. Fazem parte da minha vida – da vida da minha família – como outros fizeram antes. No meu caso, desde que nasci pois havia um cão em casa dos meus pais, depois houve anos de interrupção, sobretudo no período em que, com........
