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Esquerda, Irão e Venezuela

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Há muito que a esquerda portuguesa desistiu de compreender o mundo. Mas raramente o fez com a alegria performativa destes últimos dias.

Na última semana voltou a cumprir a sua função essencial de se manifestar com solenidade moral, linguagem indignada e completo alheamento da realidade. Em Lisboa e noutras capitais europeias, desfilou indignada “contra a agressão à Venezuela e ao Direito Internacional”, empunhando faixas, berrando slogans e exibindo a mesma convicção com que, há poucos meses, marchava mascarada de tartaruga ninja do Hamas, melancias à lapela, keffiyehs ao pescoço, como se o ridículo resolvesse os problemas do mundo.

O embaraço começou quando a encenação deu de caras com venezuelanos reais e não os indivíduos abstractos da bolha ideológica. Gente que fugiu. Gente que atravessou fronteiras a pé. Gente que deixou filhos, pais, casas e mortos para trás. E que, em vez de se juntar ao protesto contra a “agressão”, festejava. Festejava a captura de Nicolás Maduro, criatura que, no léxico progressista, é simultaneamente uma vítima do imperialismo e uma “figura complexa”. Como todos os ditadores e torcionários, desde que façam as suas malvadezas em nome de uma causa que agrade à esquerda zangada.

Mas convém começar pela realidade, lugar que esta gente raramente frequenta. Nicolás Maduro (des)governou a Venezuela durante mais de uma década, dando continuidade ao “milagre” socialista de Hugo Chávez, e conseguiu transformar um dos países mais........

© Observador