Lisboetas, uns e outros
Serve este artigo, publicado por mim já há alguns anos, mas devidamente reciclado nesta data, para homenagear Filipe Anacoreta Correia, que termina a sua missão na Câmara Municipal de Lisboa por estes dias. O Filipe, meu amigo de longa data, é um orgulhoso minhoto que se deixou adoptar por Lisboa há já muitos anos. E Lisboa, que já houvera servido como autarca na freguesia de Alcântara, deve-lhe justiça e gratidão. Pelo meu lado, eu agradeço o seu indómito espírito de serviço com estas linhas. E com elas renovo a minha declaração de amor a Lisboa.
Não, a maioria dos habitantes de Lisboa não são lisboetas. Até podem gostar da cidade um bocadinho como sua, mas não são de cá: têm as raízes noutras paragens, sempre idílicas, que cultivam em visitas periódicas donde chegam como se viessem do paraíso.
De facto, como é sobejamente conhecido, a maioria da gente de Lisboa não é lisboeta. Em Lisboa, uma cidade de passagem e acolhimento, a maioria daqueles que nela actuam diariamente não nasceram aí, e boa parte deles recolhe ao fim do dia ou ao fim-de-semana aos seus lugares originários.
Um lisboeta não é, tão-pouco, aquela figura criada pelo imaginário tripeiro de Rui Moreira, que vive entrincheirado no Terreiro do Paço a conspirar contra a «província», de que se afasta como filho ingrato. O lisboeta que se preze enquanto tal, não tendo de ser necessariamente um «puro-sangue», como eu, terá no mínimo que ter nascido na cidade e já não possuir uma «terra» dos seus ascendentes onde ir baptizar os infantes num fim-de-semana prolongado, ou regressar periodicamente nas férias para reencontrar os seus familiares. Quando era pequeno assisti não poucas vezes a diálogos entre guarda-freios da Carris sobre idas à «terra» tratar das vinhas ou trazer sacas de batatas, mas para um lisboeta de gema, a nostalgia do regresso não o desloca ao Minho ou ao Alentejo, mas lança-o directamente para o vasto mundo imenso que da Torre de Belém se vislumbra oceano adentro. Enquanto isso não se realiza, vai a Sintra com a família visitar a tia velha, e de caminho traz umas queijadas.
Também importa delimitar........
