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O que António Costa não disse e JPP não ouviu

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30.12.2025

No final de Novembro, de visita oficial a Angola na qualidade de presidente do Conselho Europeu e no contexto da sétima cimeira União Europeia-União Africana, António Costa resolveu aflorar a história das relações Europa-África. Sentado entre o presidente angolano João Lourenço e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, António Costa disse o seguinte: “Há 50 anos terminaram as colónias europeias em África. Pôs-se assim fim a um ciclo de 500 anos de colonialismo cujo momento seguramente mais dramático foi o que foi marcado pelo comércio de escravos. As colónias europeias terminaram, mas infelizmente os efeitos do colonialismo não terminaram nessa altura e isso deve-nos inspirar a trabalhar em conjunto (…)”.

À primeira vista esta parte do seu discurso parece certa e adequada. O tráfico transatlântico de escravos foi um processo muito dramático, que implicou enormes sofrimentos e perdas humanas. Dizer que os efeitos do colonialismo não terminaram também parece perfeitamente banal e sem motivo de reparo pois os efeitos dos grandes acontecimentos históricos repercutem no tempo. Todavia, há nestas frases uma imprecisão e duas omissões ou acanhamentos, para não lhes chamar cobardias.

A imprecisão é a utilização extensiva do termo colonialismo. O colonialismo, um processo iniciado no último terço do século XIX e terminado com as independências das possessões portuguesas em África, em 1975, não durou 500 anos, mas no máximo 100. Nos primeiros 400 anos de contacto, excepção feita à zona de Luanda e aos arquipélagos (Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, etc.) os europeus não fundaram verdadeiras colónias, apenas entrepostos comerciais na costa que não permitiam qualquer domínio do interior.

As omissões ou acanhamentos estão no que não foi dito. Efectivamente, faltou a António Costa afirmar, de cabeça erguida e olhos nos olhos, que os efeitos do colonialismo não foram todos negativos e perversos. Os europeus devem estar bem cientes do sofrimento que as sua partilha de África, no final do século XIX, implicou para as populações locais, mas não devem esquecer que também foram europeus que levaram a África, a par da espada e da desalmada exploração, os meios de transporte modernos, as línguas que possibilitaram uma comunicação agregadora, o fim do tráfico humano e da escravidão, a medicina e a vacinação que permitiram erradicar ou controlar doenças que flagelavam não apenas os brancos, mas........

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